Gerard Unger @ ESAD

Gerard Unger @ Esad

“There is no harder edged art than Typography!”

Gerard Unger é (apesar dos seus 65 anos) uma das maiores referências mundiais a nível de desenho tipográfico. Rivalizado em idade e reputação só por Mathew Carter (como fez questão de mencionar).

A conferência foi espectacular, apesar da fraca adesão do público (qualquer parcialidade é pura coincidência…). Será que as pessoas estavam com medo de não ter lugar? Será que não conheciam Unger (o que é estranho porque o Blauvelt é ainda mais desconhecido…) Ou ainda, será que o Design Tipográfico não gera assim tanto interesse? (O que é ainda mais estranho, visto que, histórica e metodologicamente, está no cerne da actividade da prática e do ensino de Design de Comunicação).

Há dois ou três anos, uma conferência de design não esgotaria uma sala tão pequena. Agora, oradores relativamente menos conhecidos do que Spiekermann enchiam-na.
The Ressabiator

O que é que aconteceu a este público regular?

Um Designer com um sentido de humor extremamente apurado e com uma vertente pedagógica e comercial bem delineada.
Foi particularmente positivo, com um discurso calmo e bem articulado com as típicas inflexões holandesas. Mostrou conduzir muito bem a conferência recorrendo apenas duas ou três vezes às suas notas (manuscritas). Apresentou trabalho pessoal e algumas referências externas desde 1975 a 2007 (sem seguir uma evolução cronológica linear, o que foi muito refrescante), incluindo uma referência a trabalho de colegas que irá ser apresentado na Documenta de Kassel.

De qualquer forma, sem mais demoras e de uma forma mais ou menos opinionada, aqui ficam algumas notas da conferência.

Nascido em Arnhem, Holanda, em 1942. estudou design gráfico, tipografia e design de tipos de 1963 a 67…

Assim começa a descrição da conferência patente em http://www.esad.pt/v2/gerardunger/

Unger ficou mundialmente famoso (se é que já não o era) em 1988:

Ganhou o prémio Gravisie pela concepção de “Swift”, e em 1991 recebeu o prémio internacional Maurits Enschedé por todos os seus designs de tipos.


Andrew Howard apresentando Gerard Unger

O conceito de Digital Typefaces como actividade de desenho e desenvolvimento não é assim tão recente como pode parecer. Em 1975 Unger utilizava o método de desenho em grelha muito à semelhança do que ainda se passa hoje na optimização do processo de hinting de tipos.


Manual hinting por Gerard Unger

É assim que Unger se apresenta. Desde novo que se considera (por ordem) um Designer, Type Designer e ainda mais especificamente um Designer de Tipos de Texto (lá se vai o CAE…). Marca que na altura TUDO era feito à mão! Ao contrário do que possa a ser entendido, esta posição de Unger serve para reforçar uma ideia que defende: o desenho não depende da tecnologia empregue (seja esta digital ou manual). Na altura, o conceito de desenho por computador era totalmente desconhecido (o Macintosh só apareceu em 1984, o Fontographer em 85, o Photoshop em 88…), ou seja, ainda estávamos a cerca de 10 anos de distância da realidade actual. Na altura o processo consistia em pegar numa caneta de feltro, aparo ou outro marcador de tina, tinta branca e preta e desenhar. Depois submeter os desenhos a uma minifying glass (por oposição a magnifying glass AKA lupa) para respectivo escrutínio.


Demos, 1975

No início da sua actividade desenvolveu um tipo cru, mas muito interessante na sua intenção.
O verdadeiro Wolkswagen da tipografia destinado a ser usado por todos e para todos. Apesar de ter sido criticado e, de uma forma geral, não ter sido bem aceite, mais tarde o governo alemão contactou-o com a intenção de desenvolver uma identidade nacional com base no seu tipo. Levou um Verão inteiro a digitalizar, mas parece que afinal sempre veio a ter o seu Wolkswagen ;) (piada original)


Swift e Swift 2.0, 1985, 1995

Palavras para quê? Por favor alguém tire a Helvetica do chinelo…
Lembra que, na altura, os impressores do jornal com quem estava a desenvolver a fonte tinham combinado uma prova de testes à qual se “desmarcaram” à última hora… Sem forma de saber se os desenhos funcionavam numa impressão real, decidiu comprar espaço de publicidade no próprio jornal, com cercadura e um grande cabeçalho onde se lia “Isto é um teste tipográfico!”

Acerca da Swift, afirma “There is no harder edged art than Typography!” comparando com alguns desenhos sendo um de Ellsworth Kelly (parecido com este).

It takes time for people to get attached to things. It happened to Swift… more or less 3 years.

Breve interlúdio National Geographic acerca das andorinhas (Swift) Europeias e Africanas… foi um pouco Monty Python, mas Unger manteve sempre o nível e o interesse da conferência.


Coranto, 2000

Os desenvolvimentos no processo editorial dos jornais requeria um tratamento tipográfico melhor, diferente e especial. Coranto surgiu para tirar vantagem disto.

Fan Mail! Não há nada melhor do que receber correio de fãs a elogiar o nosso trabalho. Uma carta de uma leitora britânica sediada na Suíça a elogiar o desenho e aplicação do novo tipo a da forma como este melhorava a apresentação e leitura do jornal…

(No Picture…)
Annual Report para o criador do Big Brother.


Dutch Film Fonds


Reinventando a Caligrafia?

Reinventando a caligrafia como um ideal por trás do Design Tipográfico. Há muitos instrumentos disponíveis e técnicas de desenho, mas a verdade é que todos eles têm um elo comum – o desenho estrutural (inline – em nota pessoal, não será o método modular de Blokland uma abordagem mais estruturada?). Ainda acerca da linha interior estrutural, Unger começa a experimentar com o movimento lateral da estrutura. Assim nasce a Flora.


Flora, 1984


Breve passagem pela Fuse


Beowolf, 1990

No tempo em que tudo parecia ter um corte/desenho perfeito, que o computador permitia, os criadores da Letterror (Just van Rossum e Erik van Blokland) apresentam Beowolf, 1990. Esta surge como uma afirmação de contemporaneidade pós-modernista de Design e tentativa de interpretação das teorias pós-estruturalistas de Rolland Barthes e Derrida (nas palavras de Gerard Unger).


Keedy Sans, 1989

No seguimento das ideias de irregularidade de um meio perfeito, mostra o trabalho de Jeffrey Keedy. Uma abordagem muito “copy-paste”.

Rudy Vanderlans no “roster”… ao qual se queixou directamente:
“Rudy, gosto muito de ler os teus textos, mas são impossíveis de ler até ao fim”.

Pessoalmente, Unger nunca seguiu esta filosofia de desconstrução e de linguagem vernacular (como a de Barry Deck). Muito mais inclinado para o processo de comunicação em massa e para a normalização. No entanto, o resultado de Deck – Arbitrary Sans, é extremamente legível… O que é que este design tem que funciona como texto, como comunicação de massas? Como é que funciona? Definitivamente chamou a atenção de Unger.

(Se na altura chamou a atenção de Unger, hoje é impossível o trabalho de Deck passar despercebido. Uma palavra, ou melhor, apenas uma pista… Coca-cola…)


David Carson, utiliza a fonte Zapf Dingbats para paginar uma entrevista inteira na Ray Gun… (Por falar em Carson,… entrevista recente “com” Debbie Milman)

Segundo Carson, o texto original não era muito interessante de ler de qualquer forma.

Story goes he got fired after pulling this stunt, but it’s not true. The editors loved it and he kept on doing that approach

Mestrado em Tipografia em Haia do qual destacou algumas presenças recentes entre as quais Andreu Balius ao revisitar tipos Nacionais Espanhóis (ver o relatório da ATypI Lisboa 2006).


Documenta de Kassel

Sinalética a ser desenvolvida por um grupo de Designers Alemães – Fünf (alguém conhece? Mandem o link s.f.f.).
Podemos esperar por este resultado com grande expectativas. A nova geração de (Type) Designers no norte da Europa, especialmente na Alemanha andam a produzir resultados muito interessantes.


Capitulares de Cresci, Capitolium, 1998 e Capitolium News, 2006

A lot more commercial than Swift

Originalmente desenhada como um tipo para um sistema de sinalética e orientação para a cidade de Roma (porque será que forma pedir a um holandês para desenhar um tipo clássico de Roma?… Unger ainda não percebeu muito bem…). Este trabalho foi concretizado nuns espantosos 5 meses! No entanto, sem saber muito bem, nunca chegou a ver as aplicações do tipo em acção.

Acerca do desenho de Capitolium, remete-nos para Cresci, autor renascentista Giovan Francesco Cresci: “Cresci diz que as melhores letras romanas encontram-se na base da coluna de Trajano”.

Podemos observar reminiscências das letras de Cresci no desenho de Capitolium. No entanto, as necessidades actuais são muito mais exigentes do que na altura de Cresci: aumentar e diminuir os corpos, o tipo de papéis, a quantidade e qualidade das tintas, a tiragem, a natureza das publicações, etc…

Apresenta alguns exemplos da Capitolium em uso actualmente (depois da cidade de Roma ter perdido os direitos exclusivos à fonte, Unger revisitou e rebaptizou-a como Capitolium News, uma Newsface) como o Polietiken (Jornal Dinamarquês) e outro jornal Holandês (?). Por vezes (como no vídeo) temos que ceder algumas decisões em prol do cliente para o agradar, em detrimento de opções técnico-estéticas mais eficientes… não sabe porque que é que os clientes têm que ter uma opinião na matéria… (piada original).

No final abordei Unger com duas questões. Sendo a segunda após a conferência, a primeira, em público (tenho mesmo que perder este vício…), se considerava que o seu trabalho – Swift 2.0 – representava de alguma forma o Design Tipográfico Holandês. Respondeu afirmativamente e sem falsas modéstias, mas remeteu para a parte da conferência em que explicou que ao contrário do Design de uma forma geral, o Design Tipográfico é sintomático do tempo que habita. Isto é, demora menos tempo a adaptar-se a a criar soluções novas, sintonizadas com a própria sociedade… não sei se concordo muito com esta opinião, gostava de ver mais sobre isto. Alguém quer mandar-me um resumo ou oferecer-me umreaderdo Jan Middendorp?

Em privado no final da conferência perguntei-lhe qual a posição em relação ao manifesto de Ellen Lupton.
Bom… a resposta comparou-se à reacção dos representantes da Adobe em Lisboa. Embora o tenha afirmado com a máxima honestidade possível, como declarou, considera que “a senhora Lupton anda com a cabeça nas nuvens!”
Entre bajulações, risos amarelos, outros honestos e sentidos saí despedindo-me com a promessa de um contacto no futuro, mas com um sentimento misto… O que é que este Designer sabe (e que me explicou de forma tão clara) sobre o valor (económico e psicológico) dos objectos (tipográficos) que eu ainda não percebi… e se ele tem razão, porque é que anda tanta gente a trabalhar em projectos de livre acesso à informação/educação?… Definitivamente, acho que este assunto ainda vai fazer rolar muita tinta… Estou em pulgas para saber o que é que Lupton vai dizer no próximo dia 25 de Maio na ESAD!

Sobre as Personal Views só podemos esperar que a ESAD publique os vídeos oficiais das conferências à semelhança do que fizeram com Neville Brody.

Author: Pedro Amado

Professor Auxiliar na Universidade de Aveiro a leccionar Design de Interação

1 thought on “Gerard Unger @ ESAD”

  1. PEDRO AMADO

    Excelente trabalho! Também não entendo esta “fraca adesão”… pois! também não estive presente, horário de trabalho incompatíveis (obrigações! blá! blá!)…

    Agora, mais dois GRANDES mestres – Jon Wozencroft e Ellen Lupton – a NÃO PERDER.

    Obrigada por esta divulgação e informação
    BOM TRABALHO!

    *os vídeos são uma ferramenta de trabalho bastante lúdica.

    ttttt

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