Andrew Howard por José Bártolo

Hoje de manhã recebi um e-mail de José Bártolo a dar conta da entrevista publicada recentemente que conduziu a Andrew Howard (o que agradeço veementemente, porque o meu google reader excede as 400 entradas por ler…)

http://www.artecapital.net/entrevistas.php?entrevista=51

Ver também a entrada no Blog de Bártolo: http://reactor-reactor.blogspot.com/2008/05/quando-28-de-fevereiro-de-2003-teve.html

Nesta podemos ver as intenções originais, esforço e valor que as conferências – Personal Views – introduziram no panorama nacional (e local) do Design em Portugal. A par desta entrevista recomendo a leitura dos poucos posts que tenho neste blog bem como da consulta do Ressabiator.

Andrew Howard é designer gráfico, curador e crítico de design. […] O pretexto para esta entrevista é a aproximação do fim da última temporada dos Personal Views um ciclo de conferências sobre design gráfico iniciado em 2003 e que trouxe a Portugal alguns dos mais importantes designers da actualidade.

Por José Manuel Bártolo

http://www.artecapital.net/entrevistas.php?entrevista=51

Alguns destaques:

Não usaria o termo “crítico”, prefiro usar a palavra “escritor” mesmo que não escreva tanto quanto gostaria.

Embora não seja em tom de crítica, já tenho testemunhado alguns comentários em surdina que o Andrew se devia dedicar ao que melhor sabe fazer – ao design – e deixar a teoria, porque quando escreve pouco diz. A verdade é que pouco ou nada li dele. Ignorância minha? De qualquer forma, emaptizo com a opinião de Mário Moura (se é que ainda é a mesma) que é muito difícil fazer as duas actividades. Especialmente em Portugal. Num mundo perfeito, seguiriamos todos o conselho de Debbie Millman: ” We can talk about making a difference, we can make a difference or we can do both”

Olhando o design gráfico como um processo – uma forma de organização intelectual expressa através de formas visuais e não uma forma particular de comércio – conseguimos envolver inúmeras formas de comunicação gráfica orientadas para as relações e aspirações sociais que são a sua razão de ser.

Creio que é o cerne das Personal Views. E é por isso que gosto tanto de assistir às conferências. Isso e o facto de ver como é que os maiores autores resolvem a transacção comercial ;)

P: Os Personal Views são hoje uma referência no panorama nacional e internacional, como se conseguiu criar em Portugal, para mais fora de Lisboa e sem apoios sonantes, um ciclo de conferências com esta extensão e importância?

Bravo! Excelente pergunta. A resposta desilude rapidamente.

Suponho que é o resultado da combinação de três factores: iniciativa, contactos e financiamento. É comum no Reino Unido ter professores visitantes e oradores convidados nas escolas de arte e design. Isso não parecia acontecer aqui o que para mim era estranho.

Parece que Andrew se “aportuguezou” muito… financiamento, financiamento, financiamento… Eu cá acho que o truque está na iniciativa. Saúdo Howard por ter conseguido, porque sei que muitos oradores foram puxados graças à insistência e às boas relações que Andrew mantém com a comunidade de Designers.

E ainda:

Cabe aos professores contribuírem para isto e não vale de nada queixarem-se do suposto desinteresse dos alunos. Ensinar não tem a ver com regurgitar factos e informação, tem a ver com criar condições para que o processo de aprendizagem e exploração tenha lugar. […] É claro que os contactos pessoais que eu tinha, com pessoas do Reino Unido e não só, permitiram-me estabelecer contactos únicos. Eu usei a minha rede de contactos para trazer cá as pessoas.

Indiscutivelmente o evento também beneficiou no efeito de “bola de neve”. Todos os oradores expressaram a sua satisfação por terem vindo e participado no evento, em contrapartida eles falaram com outros designers e facultaram-me novos contactos. […] A determinação da escola em financiar o evento e em dar-me “carte blanche” para o organizar tem sido fundamental.

Bravo Andrew! Iniciativa, iniciativa, iniciativa! O facto da ESAD ter dado carta branca e acreditado (a custo) no projecto é muito importante. A iniciativa não pode partir só dos professores. A administração tem que perceber e partilhar este “investimento”. (ai se o o Sócrates me ouvisse dizer esta blasfémia anti-económica…)

Da conta final constarão 45 oradores, por vezes viajando com os seus companheiros. São muitos voos, noites de hotel e refeições. Mais o pagamento que recebem pelo ensaio para a publicação. Eu tenho sérias dúvidas de que uma escola pública tivesse a liberdade financeira ou académica para fazer isto.

Qual o porquê de apenas terem sido convidados três (ou quatro se incluirmos Robin Fior) designers portugueses (Ricardo Mealha, Henrique Cayatte e Heitor Alvelos)?

R: Houve outros na minha lista. Um declinou, e o outro não respondeu. Mas acima de tudo, eu pretendia encontrar oradores com um corpo sólido de trabalho e experiência e quando os Personal Views se iniciaram não havia muitas pessoas com este perfil para escolher. Desde então, outros designers portugueses se estabeleceram. Em todo o caso, eu nunca estive preocupado em que as conferências fossem geograficamente representativas. Se eu achasse que há uma abordagem ou visão do design especificamente portuguesa talvez tivesse pensado de forma diferente, mas não creio que haja.

Espero mesmo que a opinião de Howard seja diferente… aliás, o meu desafio é precisamente este: E que tal montar um ciclo de conferências (ok, pode ser mais curto) intitulado “Opiniões Pessoais” cujo conceito assenta em reflexão e design nacional? Estou a disponibilizar-me oficialmente para colaborar a montar. Andrew, Mário, José, Aires, Heitor, Mota, Bessa…? Alguém?

O “fenómeno” Personal Views, com o auditório da ESAD invariavelmente lotado…

lolololol… infelizmente, ou felizmente é verdade. Acho que o facto do Design interessar aos designers é natural e ser de interesse exclusivo até considero que pode ser uma coisa positiva ao contrário do que pensa Howard.

Esta série anuncia-se como a última e, entretanto, anuncia-se também a publicação, em livro, das conferências. Quando é que prevê que o livro seja publicado e o que podemos esperar dessa publicação?

R: A publicação do livro tem sofrido atrasos por diversas razões. Inicialmente, pretendia publicar um livro por ano mas a demora em receber os textos obrigou-me a repensar a ideia. Eu espero receber todos os textos até Setembro e ser capaz de publicar o livro antes do Natal. Os materiais que eu pedi aos oradores para escreverem não são transcrições das suas conversas mas essencialmente ensaios escritos. Desta forma, eu espero que possam cobrir aspectos que, em muitos casos, os oradores não chegaram a abordar nas suas apresentações.

Por favor Andrew… não deixes cair este tão aguardado projecto.

Ainda sobre as Personal Views Bártolo tem outro artigo publicado. Para quem não conhece ou ainda tem dúvidas: http://www.artecapital.net/opinioes.php?ref=65

Se os Personal Views são, indiscutivelmente, uma enorme conferência sobre a dimensão política do design de comunicação, eles possibilitaram uma gradual e consolidada reflexão sobre os meios, as necessidades e os valores que estruturam uma disciplina especializada em comunicar – literalmente em pôr em comum – em procurar consensos, em exercer dinamicamente a mediação, a nossa voz em comunhão com a de outros.

Dessa reflexão sai reforçada a ideia de que o design não é um processo socialmente neutro, antes um exercício intencional que arrisca a mediação comunicativa, promovendo estratégias de diálogo, num espaço frequentemente dominado por interesses paradoxais; dessa reflexão sai também evidenciada a motivação da disciplina para, perante uma crise de valores generalizada, os questionar e comunicar, os produzir e propor, aliando à comunicação uma decisiva ética da acção.

Mais uma vez parabéns ao Andrew. Mesmo não entendendo ou concordando com as opiniões dele, sou o primeiro a afirmar que o que ele tem construido no Design Nacional é um legado incontornável.

Parabéns ao Bártolo pela excelente entrevista e artigo aprofundado.

Author: Pedro Amado

Professor Auxiliar na Universidade de Aveiro a leccionar Design de Interação

6 thoughts on “Andrew Howard por José Bártolo”

  1. O prof. Andrew quando escreve pouco diz? Esta genta anda toda maluca. Esse parece-me um comentário do típico ignorante aluna da ESAD.

    O que vale é que os cães ladram e a caravana passa.

    Jcouto

  2. Joana:

    Esta gente anda toda maluca:
    Sim… postar à noite depois de um dia de trabalho, com 4 horas de sono é de loucos…

    Típico ignorante?… mmhhh… talvez típico ignorante do que se passa na ESAD. Não sei como é dentro de portas…

    O que quero com isto dizer é: até hoje ainda não li algo siginificativo do Andrew H. Se procurei? Nem por isso… Não andamos propriamente a tropeçar nas publicações dele… artigos (no site conto 5 artigos e uma entrevista…), teses?, blogs?… se ele não diz o que faz, não posso adivinhar…

    A um nível mais pessoal (e mudando o tom à conversa) já tive a oportunidade de o conhecer e falar com ele em diversas ocasiões. É um tipo bestial (embora me irrite a tendência que tem para descambar para o discurso em inglês… por outro lado, há que apreciar a pronuncia) e é definitivamente um GRANDE DESIGNER, pela avaliação do trabalho que vi até hoje (CPF, Serralves, Silo…).

    Bom… a verdade é que terei todo o prazer em mudar a minha opinião sobre este assunto (Andrew Howard = Autor).

    Links, links, links… (estou à espera, e à procura)

  3. Olá Pedro,

    Embora sejam poucos textos, são bastante influentes. Um deles, There is Such a Thing as Society, é capaz de ser um dos textos sobre design mais citados dos últimos anos.

    De resto, ainda hoje – e mesmo num ambiente académico – é bastante difícil convencer um designer profissional a escrever o que quer que seja; portanto, cinco textos até nem me parece nada mau.

    Ser designer profissional e ser académico profissional ao mesmo tempo tornou-se uma coisa cada vez mais inconciliável, sobretudo depois de Bolonha e da quantidade de cadeiras diferentes que se é obrigado a dar. Ainda acredito, portanto, como tu dizes, que é muito difícl fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

    No caso do Andrew, parece-me que conseguiu combinar o melhor de dois mundos: é um bom designer e tem sido um excelente comissário de eventos ligados ao design. Se ele fosse obrigado a escolher entre as duas actividades – e tendo em conta que não temos um excesso de comissários ligados ao design em Portugal –, espero que escolhesse a segunda.

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