SIARC @ Mercado Ferreira Borges

Foi já há algum tempo. Mas, o prometido é devido. Por isso aqui fica uma pequena resenha sobre o 1º Salão de Artes Criativas no Porto, no Mercado Ferreira Borges. Passei por lá no dia 19 de Abril.

Como era de esperar, mesmo contactando a organização e identificando-me, NUNCA MAIS recebi uma resposta. Podia ser o Presidente da República, ou mesmo um sem abrigo,… não é maneira de tratar o público. Só por isso a organização leva uma GRANDE NOTA NEGATIVA! Um e-mail é fácil, gratuito e um “não” só leva 4 letras tecladas…

A entrada custou o que estava anunciado. 3,50€. Não foi muito caro. Mesmo assim, com os patrocínios (e com o que os stands deviam custar…) a entrada podia ser bem mais barata. Bom não é grave, desde que para o próximo ano não decidam aumentar.

Negativo também foi a organização interior do espaço. Não se percebia muito bem. Aliás, percebia-se, mas revelou ser o que tinha mais receio. Uma feira comercial de tudo e mais alguma coisa. Ilustradores, webdevelopers/artistas, instalação, venda de homeware, acessórios, escolas, fornecedores de serviços e produtos… enfim… não me pareceu haver um fio condutor forte o suficiente. Pessoalmente teria optado ou pelas artes criativas (bricolage, homeware, roupa e acessórios) ou pelas artes gráficas (produtos, serviços, ilustradores e artistas, design, webdevelopers…) De qualquer forma, havia um pouco para todos os gostos, e acho que isso se notou na disposição do espaço (mais ou menos).

Positivo a assinalar foi a disposição do lounge – uns pufs uma parede para desenhar e música. o ambiente era bastante interessante.

Outro ponto positivo foi a preocupação em incluir escolas de formação como a FLAG e a ETIC, se bem que a ETIC ainda não tem delegação no Porto (?) ao contrário da recém aberta FLAG.

Ainda antes de falar sobre o interior, gostava de assinalar o último ponto – positivo e negativo ao mesmo tempo. A informação on-line no formato site+blog é muito positivo, revela uma estratégia inteligente e colectiva (?), mas o blog morreu… há um mês que não o actualizam. E isso não se faz. Bem como a inexistência de um apanhado, resumo, recortes de jornal… parece não haver uma avaliação de resultados. Ou os organizadores não estão interessados em melhorar (o que revela algum amadorismo), ou, pura e simplesmente, não vai ser um evento a repetir. Esperemos que não, que seja para continuar durante os próximos anos.

Bom. No que diz respeito aos conteúdos do Salão. De uma forma geral foi um bom fim-de-tarde. Gostei de conhecer alguns stands como o dos autores 99 Rooms, Liliana Gerreiro (por causa das ilustrações nas paredes), Unique e os stands de alguns ilustradores como o do projecto do Tiago Pina e do Hugo (?… sorry, não fiquei com o nome, mas o projecto era qualquer coisa como Gainsborough, o cantor francês)http://www.serge-against-bourg.net/. O contacto com o stand da FLAG também me deixou bastante motivado e curioso acerca desta escola profissional.

Bom, mas a verdade é que fui ver o projecto YMYI – You Move You Interact. Logo à porta da instalação (sim, tinha uma espécie de porta, aliás, a instalação era enorme!) o Jorge Sousa estava lá para nos receber. Com muita atenção aos pormenores explicou o funcionamento da instalação.

Basicamente (para quem não quer ler no site) é uma peça desenvolvida em Processing. Usa bibliotecas de CV para detecção do movimento.

Depois entram as bibliotecas de partículas para gerar milhares de objectos atraídos pelos principais pontos dos blobs interpretados pela CV.

E por fim o Super Collider para sintetizar e interagir com o som.

Pode ler-se no site:

YMYI (You Move You Interact) é uma instalação interactiva onde se pretende criar um diálogo corporal com um sistema artificial, do qual resulta uma performance sincronizada entre um corpo real e um objecto virtual. O projecto visa a exploração de um espaço onde o utilizador desenvolve um processo criativo com base nos gestos e movimentos do seu corpo.

Entretanto chegou o João Martinho que completou a explicação com dados/pormenores mais técnicos. Na realidade a peça pode “adormercer” e “acordar” reagindo ao utilizador. Também dispara estímulos para captar a atenção (espero não estar a contar nenhuma mentira…)

Em tom de notas… muito positiva estava montagem da instalação e a fluidez do sistema. Não se enganem, o Processing não é, de longe, a aplicação ideal para realizar esta tarefa. É simples de cirar a interacção básica e a integração dos elementos, mas consome muitos recursos ao sistema. Curiosamente, YMYI tem uma eficiencia e fluidez que não julguei ser possível. Mérito da máquina, ou do programador? tendo já trabalhado com um Dual G5, ou a mudança para Intel acelerou mesmo muito o hardware ou então o João e o Jorge estão de parabéns. E eu acho que os parabéns estão na ordem do dia… ;)

A ideia em si não é nova. Já há alguns anos (desculpem, mas não consigo precisar estas infos…) interagi com uma instalação no Café-bar Labirinto, cá pelo Porto. Se não estou em erro foi programado em OpenGL (provavelmente em VVVV) por um aluno da Católica (?). Desculpem João, Jorge… esta peça, além de mais fluida apelava a um grau mais básico de interacção… um elemento móvel colidia com o contorno do corpo e era possivel “jogar” com ele, aprisionando-o ou jogando tennis, quase um Pong. É claro que esta também não é uma ideia inovadora. Dezenas de trabalhos já foram realizados de forma semelhante. basta fazer um pesquisa rápida pelo Google pelas principais tecnologias de tempo real…

O que quero dizer com isto é que a interacção com o utilizador é bastante críptica no caso do YMYI. as pessoas precisam de um grau de interação mais lúdica, mais básica, como que apelando ao espírito Tetris do nosso lado. Isto foi aflorado com bastante eficácia e pertinencia na exploração da memória. as particulas retiam o nosso movimento geral, como se de um líquido se tratasse e retinham as acções… mas… não sei. Pareceu-me pouco.

YMYI You Move You Interact – Digital Art Installation from Joao Martinho Moura on Vimeo

Eu sei, eu sei… estou a reclamar demais… Não. Não me entendam mal. YMYI é talvez um dos melhores trabalhos/instalações interactivas em tempo real que já vi. Estava bem montado, a apresentação estava completa e agradável, o Jorge e o João foram bons anfitriões e muito acessíveis, tecnicamente corresponde a tudo o que é pedido (suficientemente rápido e faz uso de tecnologias “boa onda”, A.K.A. Open Source, promovendo a comunidade), está bem documentado (site, notícias, divulgação…) e ainda por cima, tive a boa surpresa de saber que eles também vão estar em mostra na Computational Aesthetics em Lisboa nos próximos dias 18-20 de Junho.

Definitivamente, esta é uma dupla a prestar atenção. Estão bastante lançados com este trabalho de Mestrado de Tecnologia e Artes Digitais da UM (o que dá para pensar que os tipos no Minho estão a fazer qualquer coisa de acertada). Parabéns! Fico à espera de ver o que o futuro reserva.

Author: Pedro Amado

Professor Auxiliar na Universidade de Aveiro a leccionar Design de Interação

5 thoughts on “SIARC @ Mercado Ferreira Borges”

  1. A instalação audiovisual interactiva que foi apresentada no Café-bar Labirinto, em Setembro de 2004, no Porto, tem o nome de “Displacement” e foi desenvolvida na linguagem C++, openGL e openAL, pelo Rudolfo Quintas e Tiago Dionísio, ex-alunos do Curso de Artes Digitais da Universidade Católica e alunos do Mestrado de Computação Gráfica e Realidade Virtual da Universidade do Minho. Mais tarde, esse trabalho deu origem a uma performance interactiva no formato de palco, de nome SWAP (ver http://www.tiagodionisio.net e http://www.swap-project.com), também desenvolvida na UMinho, que estreou no Rivoli no final de 2005. Tal como a instalação YMYI, aplica técnicas de visão por computador para criar uma representação do corpo do utilizador que permite interagir com milhares de partículas no meio digital.

  2. Obrigado Tiago! É sempre motivante receber feedback, ainda por cima tão completo.

    Confesso que procurei essa informação durante algum tempo, mas não a consegui encontrar. Era precisamente essa instalação a que me referia – “Displacement”.

    Mais uma vez obrigado pelo comentário e parabéns!

  3. Há algumas semanas atrás o João M. respondeu-me a um e-mail e deu-me autorização para publicar a resposta dele a este post, que tenho o maior prazer em transcrever aqui. Creio que vem corrigir algumas afirmações erradas que publiquei acima, pelo que peço desculpa ao(s) autor(es) e ao(s) leitor(es). Espero que acrescente a informação suficiente:

    “Após leitura, concordo com o que escreveu.
    Só devo acrescentar um pequeno reparo. A questão da interacção “críptica” é mesmo pertinente.

    Várias versões do YMYI foram testadas antes da sua primeira exibição. Quanto maior era o grau imediato de resposta interactiva, menor era o grau de exploração do próprio movimento, como motivador de expressão corporal. A ideia do YMYI é que se desenvolva um processo criativo e não lúdico, com os gestos e movimentos do corpo, embora ainda não saibamos se atingimos essa
    mesma ideia com clareza. O objectivo do artefacto YMYI não é lúdico, mas sim um esquecimento corporal por parte do experienciador enquanto prossegue com o acto de experienciar.

    Bom … no entanto, a verdade é que a questão lúdica vem sempre primeira em qualquer
    abordagem que nos foi feita (creio que devemos considerar melhor esta abordagem).

    YMYI é um artefacto (foi a designação que escolhemos para melhor
    A palavra “artefacto” (em ciências experimentais) vem do facto de o YMYI ser “resultado de uma experiência que não poderia acontecer naturalmente e que foi causado por um método de experimentação errado” (1) o manuseamento de tecnologia.
    Esta tecnologia “como ferramenta ao serviço do engenho criativo artístico, ou seja, como motor para a criação de novas formas de arte (maior) seja ao nível dos processos ou dos produtos”(2).
    (1) – http://pt.wikipedia.org/wiki/Artefacto
    (2) – http://mtad.dsi.uminho.pt/

    É sempre um pau de dois bicos apresentar o artefacto em diferentes espaços (creio que no fórum da maia, o YMYI resultou melhor, pelo espaço que ocupou, e porque estava num ambiente mais formal, e a sua percepção enquanto instalação artística foi mais evidente).

    Na Computational Aesthetics iremos usar um bailarino e o artefacto será uma performance
    e não uma instalação. Estou algo ansioso por sentir como irá funcionar.”

    E assim foi. podem consultar os vídeos do YMYI no Vimeo:
    http://www.vimeo.com/938611

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s