Gateways revisitado

(Pormenor dos stands da exposição)

A inauguração da exposição Gateways no Silo do Norte Shopping foi tão surpreendente como agradável. Descrito por Mário M. num post intitulado A Livraria Ideal, também não posso deixar de fazer a comparação do espaço do Silo a uma gigante e espectacular montra de livraria. Mais de 400 capas em exibição (com os livros editados). O brinde da exposição foi a confirmação da edição de um livro (catálogo) excelente editado por Andrew H. por ocasião da exposição .

(Pormenor do corredor de acesso ao Silo)

À entrada deu para perceber que estavam presentes mais pessoas do que é normal nestas inaugurações. Creio que o evento terá sido um sucesso também por isto – conseguir reunir um conjunto de interessados mais variado do que o normal. No entanto, o Montag descreveu a exposição com grande entusiasmo, mas com “óbvias desvantagens da localização fora de Lisboa e fora do centro do Porto, e de ter aberto em plena silly season“.

Lamento discordar com o autor, até porque não acontecem eventos suficientes relacionados com Design de Comunicação. A(s) iniciativa(s) de Howard são de louvar neste aspecto. Compreendo que levar as conferências e exposições para Lisboa seria uma forma de atrair mais público, claro!… No entanto, espero que isso não aconteça, pois iremos perder os poucos e quase únicos eventos que temos no Norte para [mais] uma manobra de centralização cultural… Quanto à “Silly Season”… talvez tenha razão… mas, como este ano estou por cá em Agosto, não me incomoda nem um pouco! De qualquer forma a exposição está aberta tempo suficiente para todos visitarmos…

De volta à exposição, acho que é a primeira vez que concordo aberta e totalmente com algo que o Ressabiator afirma:

…a exposição Gateways, mostrando capas de livros nacionais e internacionais, acaba por ser ao mesmo tempo oportuna e arriscada, mostrando trabalho da maioria dos designers que já pertencem ao cânone, mas conseguindo acrescentar-lhe algumas novidades […] De todas as exposições da série Idioms, esta é sem dúvida a melhor, a par talvez da primeira, sobre cartazes. […] que apesar de muito bem montadas e organizadas, acabavam por saber a pouco.

Realmente, o facto de termos um elevado número de exemplares de livros reais com capas fantásticas faz do Silo um espaço verdadeiramente inspirador. Confesso que saí da inauguração com uma sensação agradável, de certa forma reconfortante, por ver tanto trabalho de qualidade exposto, por me sentir inspirado, por querer voltar a desenhar capas e cartazes, por gostar da profissão que escolhi…

O espaço e expositores também estão muito bem pensados e tornam a navegação pela exposição muito eficiente. [Quase] Todos os livros são fáceis de observar e apresentam-se de forma muito digna. Só uma nota para quem ainda não visitou – há um expositor que contém capas que tiram partido de efeitos visuais/tridimensionais que por estarem mais elevadas no expositor podem passar despercebidas e que são absolutamente imperdíveis!

A exposição acaba por resultar num espaço de contemplação, crescimento pessoal,  aprendizagem e de inspiração. Melhor, só era possível se pudéssemos folhear os livros e sentir a textura e impressão das capas, mas isso é completamente impraticável.

Em compensação, foi editado o livro Gateways (a um preço muito acessível – €22,5) que reúne todas as capas em exposição e ainda compila pequenos textos que acompanham as mesmas. É definitivamente um objecto muito desejável (que acabei por comprar) e que recomendo a todos.

(Livro Gateways)

http://www.fnac.pt/pt/Catalog/Detail.aspx?cIndex=0&catalog=livros&categoryN=Livros&category=fotografia&product=9789899588905

(Pormenores do interior do livro)

Ao navegar pela exposição e, agora em casa a folhear o livro, é muito difícil escolher um, ou mesmo um conjunto de exemplares que se destaquem como os melhores, ou mesmo paradigmáticos da exposição. De qualquer forma, por entre todos os trabalhos presentes, tenho que destacar o meu preferido:

(Pormenor da Ilustração de Börner em várias capas. Retirado do http://bookdesign.wordpress.com)

The Perenial Collection, Harper Collins, 2008
Direcção de Arte: Julian Humphries
Ilustrações: Petra Börner

The coolest thing about these designs is that they are actually one big illustration that was then divided up into fifteen different book covers

http://bookdesign.wordpress.com/2008/03/24/harpercollins-uk-perennial-collection-by-petra-borner/

Confesso que foi um, senão o primeiro trabalho que vi na exposição… nem as edições da Penguin com toda a sua excelência conseguiram desvanecer a imagem que ainda retenho destas capas todas alinhadas no expositor… É a minha preferência, mas sei que as escolho pela ideia e pela ilustração, não tanto pela decisão gráfica ou editorial.

Outro aspecto positivo foi a presença de autores nacionais como Bicker, R2, André Cruz e Pedro Falcão (entre outros) cujos trabalhos ombrearam as melhores capas internacionais (o Montag tem uma lista completa de participantes). Trabalho(s) que gostava de felicitar pela qualidade exposta. Aqui (e como não podia deixar de ser) não posso concordar com o Mário M. quando nota “o triste estado do design editorial português, que só por acaso consegue produzir e manter um bom design”. Acho que a presença destes autores só vem consagrar que o nosso produto de Design Nacional está bem de saúde e não deve em nada aos melhores exemplos internacionais.

No mesmo post, em comentário, pedromarquesdg (Montag?) afirma que “as livrarias deveriam começar a assumir-se como agentes estéticos […] mostrassem livros de uma forma mais afastada das pressões de venda” – o problema é que acho que as montras mostram realmente o que nós (portugueses) gostamos de ler e de ver, mas isto é apenas o início de uma outra discussão mais longa…

Enfim. Acho que esta é uma exposição contribui activamente para combater a falta de qualidade (?) do panorama do Design Nacional afirmada por Mário e por Pedro e para reforçar e incentivar qualidade da produção actual. Acredito que esta exposição é uma mais valia para toda a comunidade profissional, mas também uma oportunidade de educação e aprendizagem para todo o público em geral. Uma exposição e catálogo imprescindíveis.

Obrigado Andrew, Silo (NS), Serralves, ESAD e todos os que contribuíram para a exposição e para a série Idioms. Ficamos à espera de mais!

(Todas as fotografias utilizadas neste post são de um PDF enviado por Andrew H.)

Author: Pedro Amado

Professor Auxiliar na Universidade de Aveiro a leccionar Design de Interação

5 thoughts on “Gateways revisitado”

  1. “a falta de qualidade (?) do panorama do Design Nacional afirmada por Mário e por Pedro”

    Obrigado pelas referências! Apenas para acertar um pequeno detalhe: não subscreverei totalmente a opinião desanimadora que o Mário Moura apresenta sobre o panorama português. Creio, muito objectivamente, que temos uma mão cheia de excelentes designers, e para um país que nem uma revista de design gráfico consegue manter (lembram-se da Page?) isso não é nada mau.

    Devo dizer que ainda não fui ver a exposição (o meu texto no Montag refere-se unicamente ao press release recebido), pelo que esta (sua) descrição é a primeira que leio sobre o evento e a abertura. Já agora, sabe se saiu e onde algum artigo na imprensa escrita? O Andrew Howard não especificou no documento enviado.

    Pedro Marques
    pedromarquesdg.wordpress.com

  2. Pedro: Obrigado pelas notas e correcções! Quanto a artigos na imprensa, não reparei em nada, mas é muito provável que tenha havido cobertura da imprensa. Não estive muito atento, pois voltei hoje “de férias”.

    Ilídio: Quanto à data de fecho, não confirmo (porque não está nem no flyer que tenho ao meu lado…), mas o Blog Liguagens do Design afirma que o fecho é a 20 de Setembro. Já faltam poucos dias.

  3. Re-re-visitando a Gateways.

    Bom, depois de ver a Gateways, mais uma extraordinária exposição Idioms, não lhe chamaria “livraria ideal”, como o Mário M., mas “montra ideal”, como sugeres, Pedro. Precisamente porque não podemos “folhear os livros e sentir a textura e impressão das capas” como dizes. Tal desafio seria realmente complicado num espaço como o Silo, embora não impossível. Mas não deixo de notar que, nesse aspecto, o belo livro que acompanha a exposição fica quase a ganhar na explicação dos objectos. Isto porque a fotografia mostra a lombada e a capa (frente) dos livros, ao contrário dos expositores que, de tão repletos, deixam pouco espaço de leitura às lombadas (este catálogo resulta até melhor que outros livros semelhantes como por exemplo o “Penguin by Design – A Cover Story 1935 – 2005”, de Phil Baines, onde não existe uma única fotografia que denuncie a terceira dimensão dos objectos ali tratados). Um dos argumentos por trás desta opção será, claro, o simples facto de ser uma exposição de capas e não de livros. E ainda a ideia de capa que se continua a privilegiar, entre os editores (pensando inevitavelmente nas montras da livraria e digital), entre muitos designers, ou nos blogs, porque é aquela que vende: a capa enquanto rosto. Entender por capa apenas a sua frente é legítimo mas redutor. Acontece que um dos muitos méritos desta exposição é o facto de ter ali os objectos, completos. E julgo que isso podia ser mais potenciado, tornando uma excelente exposição numa exposição brilhante. Bastava revelar um pouco mais da lombada e contracapa (esquecendo já as badanas). Em expositores verticais, por exemplo, onde o objecto pudesse ser contornado. Alguns amigos, em conversa, apontaram também a ideia de criar uma extensão da exposição, noutro espaço, em forma de biblioteca de consulta livre.
    Agarrar um livro, sentir, pesar, cheirar, folhear e ler é a única forma justa de o apreciar (se pudéssemos agarrar os livros, rapidamente aqueles expositores teriam ficado vazios, é certo. Mas vontade não faltou!). E embora esta não seja uma exposição de livros, mas de capas, ali apenas vemos “pequenos posters” (como diria Tschichold). E tão certo quanto as capas (frentes) serem na sua maioria excelentes, é também as lombadas e contracapas o serem… imagino eu!
    Ficou uma sensação semelhante à de ter provado um vinho magnífico em que apenas me deixaram apreciar a cor. Ou cheirar os aromas. Ou saborear. À vez…
    Mas para quem ainda não visitou, até 20 de Setembro é aproveitar e beber do que há!

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