Bicker on Book Design

João Bicker @ UA

Conforme anunciado no post anterior, na passada sexta-feira, João Bicker, Designer da FBA e Professor do DEI.UC foi leccionar uma aula aberta na Universidade de Aveiro (no âmbito do Mestrado de Estudos Editoriais).

Não o conhecia pessoalmente, mas graças à Prof. Teresa e ao Prof. Carlos, docentes das unidades curriculares do Mestrado, eu e a Catarina tivemos uma breve oportunidade de nos apresentarmos e trocar algumas ideias com João Bicker antes do início da conferência. Estava particularmente interessado na opinião sobre o “novo” modelo de curso de design, no qual lecciona — Design e Multimédia. Como já o afirmei antes, acho que este curso, tal como o curso onde estou inserido — NTC — é o futuro de uma formação mais completa dos nosso alunos. Pelo que percebi, apesar de recente, a licenciatura em Coimbra também está a correr bem.

Em relação à conferência, valeu a pena ter “desperdiçado” a tarde para ficar em Aveiro. Com grande pena nossa, não pudemos ficar até ao fim, ficando por assistir à troca de ideias que se seguiu à exposição de Bicker. No entanto, relembrando apenas a exposição de ideias que trouxe aos nossos alunos, só posso dizer que fiquei com pena de nunca ter sido aluno dele…

Resumindo, acho que a ideia central de Bicker foi a de rejeitar o culto de um estilo pessoal (quase as modinhas que o Mário aborda num dos últimos posts) para aceitar a ideia que o conteúdo deve ditar a forma como se desenha o projecto (não é citação directa porque não consegui registar a frase exacta, mas…).

Acima de tudo, creio que esta é uma ideia muito contemporânea, fruto de um retorno aos ideais modernistas e funcionais de designers como Dieter Rams ou Paul Rand em detrimento do Design de Autor, tal como tive oportunidade de escrever numa opinião recente a pedido de uma aluna das Belas Artes (a publicar oportunamente). Estas questões de identidade e autoria são delicadas, mas devem ser abordadas especialmente nas licenciaturas.

Classificação Tipográfica de Bicker (adaptada da original de Vox)

De resto, na conferência que tinha por título “A forma dos livros” foi muito bem estruturada, Bicker fez a exposição de vários temas de forma encadeada e clara, com bastante profundidade. Para ficarem com uma ideia (do que perderam?) alguns dos tópicos e autores abordados foram:

  • Jan Tschichold e a origem dos movimentos do século XX;
  • The Penguim Composition Rules — Na Penguim é que as duas correntes da vida de Tschishold se conjugaram;
  • Grelhas editoriais — Construção, colunas e formatos de página e da mancha útil;
  • Peter Gill — Grelhas complexas;
  • Tipografia — Taxonomia, Legibilidade e Inteligibilidade (este último termo é da Catarina, até porque, como mencionado por Bicker, em Português não temos uma clara distinção entre Legibility e Readability);
  • Livros: Capas e Álbuns — Capas da Fenda.
Classificação de Tipos de Maximilien Vox, 1963 (Retirado do Fonts & Encodings, p. 409)

Em relação ao item da taxonomia tipográfica, fiquei um pouco surpreso. Bicker trouxe uma adaptação em 5 classes da taxonomia original de Vox/ATypI (onde a classe “mechanic” foi substituída por “computer”), que não encaixa exactamente nas que tenho como referência. De qualquer forma, não creio que este sistema seja o melhor para leccionar. Acaba por criar entropia com as datas e com o aparecimento de diferentes modelos. Ainda por cima é uma confusão quando o tentamos aplicar nas fontes criadas na última década… No entanto, tendo em conta o público e a discussão foi mais do que eficiente.

Classificação Tipográfica de Ellen Lupton, 2004

Para mim, todos os sistemas de classificação têm falhas graves e talvez o PANOSE 2 seja o melhor esforço para sistematizar à luz da realizada digital, embora completamente inútil para “humanos”. Pessoalmente, prefiro o esquema da Lupton pela simplicidade. Ao trabalhar com alunos do Mestrado de Design e Projectos Editoriais da FBAUP, tenho passado por estas questões e ainda está para vir o dia em que alguém vai desenvolver um sistema que aborde desde a proto-tipografia (sec. XIV) à tipografia digital (sec. XXI) passando pelas expressões manuais como a tipografia vernacular, ou as diferentes letras góticas. No meio desta confusão toda, acho que o melhor é dar um pulo à página do Luc Devroye, ao Typophile e passar os olhos por este artigo de Silva e Farias.

No meio da conversa a Catarina lembrou-se de um projecto que também propunha uma classificação: Type Navigator — http://typenav.fontshop.com (desde Set. 2004). Enfim, é mais um exercício de fragmentação do que de síntese…

Em relação à legibilidade, gostei muito da definição de “reduzir o esforço requerido pela leitura — esforço este requerido e (re) direccionado para a leitura”. Nesta expressão tão simples de Bicker fiz o paralelo com uma ideia de Chris Andersoncognitive surplus — onde se aproveita este potencial para investir na produção de conteúdos por exemplo. Mais uma vez, o crystal goblet, assume-se num racionalismo e funcionalismo muito sóbrio que marcou o passo da aula.

Os breves momentos que passamos na aula de Bicker revelaram ser muito completos e tocou-se em assuntos que já tinham sido abordados nas aulas com aquela turma em particular. Especialmente na abordagem racional que assume na construção da grelha de paginação. Espero que desta os alunos do DLC assimilem este conceitos.

Por fim, e para acabar, espero poder vir a ter mais oportunidades de interagir com o Prof. João Bicker no futuro. Um obrigado aos poucos alunos (fora da unidade curricular) que apareceram, e um recado para todos os outros — para a próxima não percam uma oportunidade destas. Valeu a pena!

Author: Pedro Amado

Professor Auxiliar na Universidade de Aveiro a leccionar Design de Interação

8 thoughts on “Bicker on Book Design”

  1. Valeu a pena também porque ali se ouviu um designer falar em design real e não em design gourmet (aka design bonitinho). Impressionou-me a lucidez de quem conhece bem o mercado editorial, as suas exigências e ainda assim é capaz de desenhar objectos belos e úteis.

    (obrigada pelo sumário Pedro!)

  2. …mencionado por Bicker, em Português não temos uma clara distinção entre Legibility e Readability);

    “A legibilidade e facilidade de leitura, não são a mesma coisa. Decerto que a legibilidade influencia a facilidade de leitura e vice-versa, mas para compreender como se influenciam uma à outra é necessário analisá-las separadamente. O grau de legibilidade de uma fonte depende totalmente do criador da fonte, ao passo que a facilidade de leitura deriva, em grande parte, da competência do tipógrafo…”

    Excerto do livro, “O que é a Tipografia” de David Jury

    Espero ter ajudado…

  3. Pretendia, no texto acima, reforçar a ideia de Bicker que não temos uma palavra em português para “readability”…

    Apesar da intenção não ter sido essa, aproveito para dizer que acho que, neste aspecto David Juri falhou redondamente na explicação… Tenho o livro na prateleira e já percebi que o vou ter que voltar a ler…

    É claro que, na sua criação (como tudo na vida) uma fonte é da inteira responsabilidade do seu criador. E que quanto mais competente um compositor, melhor a qualidade do texto final… parece-me relativamente óbvio. A explicação não acrescenta grande coisa ao significado das próprias palavras… Aliás, conseguimos inverter essa explicação e ainda faz algum sentido.

    Tentando acrescentar à definição de Juri. Uma vez que a fonte é criada para ser utilizada fora do controlo do seu designer, a legibilidade prende-se com inúmeros aspectos que estão relacionados com a aquisição visual. Desde o desenho da forma das letras às condições de iluminação e suporte onde estão aplicadas. A legibilidade pode então definir-se como o grau de erro na identificação / leitura das formas das letras, palavras e textos.

    Quanto menor o erro, maior a legibilidade.

    O desenho da fonte deve estar preparado para evitar os erros na aquisição — actualmente consideramos uma frutiger mais legível do que uma textura… certo? No entanto, a legibilidade não é decisiva por si só (por mais que o Vignelli o quisesse!) Pensem num todo-terreno vs. um fórmula 1.

    Já a facilidade de leitura (readability) tem que ver com inúmeros factores sócio-culturais do seu compositor, dos seus leitores, com o conteúdo do texto, etc… Voltamos à velha máxima: “lemos melhor o que lemos mais…”

    O Kevin Larson tem um punhado de artigos com opiniões curiosas sobre o assunto. Procurem no Google Scholar! Já aqui o tenho mencionado e vale a pena ler… Spoiler: Parece que nem todos os estudantes do ensino superior lêem um texto bem paginado tão rapidamente como um mal paginado… ;)

  4. Olá outra vez. Depois de pegar no livro de Juri creio ter sido um pouco injusto com o ZTX acima…

    @ZTX Se não agradeci antes, obrigado pelo input do Juri. Mesmo.

    No entanto, a citação que usas da página 82 é apenas o primeiro parágrafo. Juri acaba por explicar (por outras palavras) o que tentei resumir aqui. Logo a seguir à tua frase, juri escreve ” A legibilidade respeita ao grau de nitidez que permite distinguir…”. Continua mais à frente com “os tipos de letra mais legíveis são os que têm caracteres com espaços internos abertos ou fechados maiores…” e depois mete os pés pelas mãos (no que eu acho que começa a ser a definição de Inteligibilidade, ou facilidade de leitura) “Isto não só afecta a legibilidade dos caracteres individuais[…], como também dificulta a identificação da forma das palavras.”

    Enfim, de uma forma ou de outra, os conceitos de LEgibilidade e INTELIgibilidade estão interligados partilham características que se influenciam mutuamente.

    Nem sempre é fácil definir estes campos de acção e espero ter acrescentado algo positivo. Tal como o ZTX, recomendo a leitura do livro do David Juri nas páginas :
    20 — Leitura e Tipografia;
    50 — Deficiência Visual;
    82 — Legibilidade;
    84 — Facilidade de Leitura;

    Já que estamos nisto, aproveito para também recomenda a leitura do livro de Gerard Unger —While you’re reading — que lida com muitos destes assuntos.

  5. Olá Pedro,

    Concordo, plenamente com o que dizes, mas de facto, como o excerto era comprido, apenas me limitei, a citar o primeiro parágrafo. Ainda bem que és uma pessoa atenta e te deste ao trabalho de verificar.
    Na área da tipografia, nem sempre as coisas são pacíficas em termos de definições, posso dar um exemplo: a largura do quadratim ou “eme” , há livros que dizem que corresponde à letra M, outros que dizem que é a largura do travessão (risca). Ambas podem ter razão de serem verdade, depende do que Designer se baseou ao construir a tipografia. Embora também sabemos que a Letra M tem de se inserir no respectivo quadratim com os devidos espaços de defesa (sidebearing) ao carácter seguinte, logo lá se vai a teoria da largura do M.

    Ainda assim se prefiro esta definição:

    “Eme” ou quadratim
    Em mensuração linear, é uma distância igual ao tamanho do tipo. Em mensuração quadrada, é o quadrado que define o tamanho do tipo. Assim, um eme tem 12 pt num tipo de 12 pt, o quer dizer que será sempre igual ao tamanho do corpo a utilizar.

    Já agora aproveito por felicitar o teu Blog, pois é uma grande ajuda aos estudantes, já que nem sempre é possível por parte das Faculdades dar referências, em determinados assuntos, como é o caso.

    ZTX (Zé Teixeira)

  6. Apenas uma nota: penso que o conceito “cognitive surplus” está mais associado ao Clay Shirky do que ao Chris Anderson.

  7. @DB:
    Pois, tens toda a razão. A referência está mal atribuída, obrigado pela correcção.

    O salto conceptual que aqui foi dado é gigantesco… Creio que andava a debater-me com estas questões sobre a participação e o envolvimento, mais ou menos na altura em que falámos sobre isto… Mas aqui os créditos devem-te ser atribuídos, porque acho que foste o primeiro a falar-me do Shirky na passagem de ano, ou assim…

    O hiato de conceitos agora é difícil de reconstituir operacional tem que ver com a forma como o gratuito (Free do Anderson) é possibilitado através do excedente congnitivo (cognitive surplus do Shirky) que as pessoas estão dispostas a ceder para uma causa—comentar compras, tagar informação, etc… Enfim. Isto para mim também está numa grande névoa e ainda não é claro. Não ficou bem explicado, mas também já não consigo reproduzir o raciocínio…

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