Mata-gralhas

Como Se Corrigem Provas Tipográficas (Folha de rosto)
Como Se Corrigem Provas Tipográficas (Folha de rosto)

Quando a oportunidade surge, e o orçamento permite, não hesito em comprar livros de tipografia portugueses. O que, mais do que manuais informativos ou técnicos, são autênticos objetos de coleção e testemunhos inestimáveis da nossa história.

Sempre que os folheio, não consigo deixar de sentir uma certa nostalgia de um tempo que nunca vivi.

Desta feita, tive a sorte de conseguir comprar o manual “Como se corrigem provas tipográficas: Noções úteis para quem manda executar impressos às tipografias“, de Alexandre Vieira e Gonçalves Piçarra. Edição de «Albagráfica, Lda.». Lisboa, 1951. Este exemplar está assinado e dedicado pelo primeiro autor.

O manual atraiu-me logo pelo título. Estava à espera, obviamente, de encontrar normas sobre a sinalética de revisão (da qual só conheço a anglo-saxónica de manuais como o Kane e Haslam, ou a portuguesa em manuais como o do Vilela). Mas também algum testemunho sobre a profissão de compositor e revisor em meados do século XX, bem como sobre a forma de encomendar trabalhos.

Índice — à francesa —, no final da publicação.
Índice — à francesa —, no final da publicação.

Apesar de ter sido um pouco caro, este manual revelou conter bem mais informação do que esperava. Os autores usam um tom humilde e despretensioso, embora um pouco ressabiado em relação aos industriais das «casas-de-obras». Descrevem as principais atividades de um revisor — os autores e detentores deste «mata-gralhas» — e os respetivos processos do seu trabalho. Para além disso, este manual ainda contém algumas notas sobre a revisão e uso de carateres específicos, como as aspas (portuguesas, estas « »), os parênteses e os travessões [1].

Como Se Corrigem Provas Tipográficas (Capa)
Como Se Corrigem Provas Tipográficas (Capa)

Usa sortes — que é como quem diz, tipos de letra — mais variados do que estava à espera. Logo a começar no uso de pelo menos 4 tipos diferentes compostos a duas cores — azul e preto — na capa.

Paginação do interior com uso de caixas (cercaduras com filetes «tremidos»)
Paginação do interior com uso de caixas (cercaduras com filetes «tremidos»)
Pormenor de uma caixa que não termina (continua na página seguinte)
Pormenor de uma caixa que não termina (continua na página seguinte)
Pormenor do canto da cercadura de uma caixa—o canto está… por fechar?
Pormenor do canto da cercadura de uma caixa—o canto está… por fechar?

A composição do texto das páginas no interior é cuidada e com caprichos típicos do chumbo, como as caixas em filetes tremidos de 2 pontos — a notar a junção dos cantos, onde está ausente o uso de uma cantoneira [talvez o compositor não a tivesse?].

Os parágrafos estão indentados num par de quadratins e, geralmente, o bloco dos capítulos abre com um versalete capitular (dropcap) composto sem indentação (esta é uma discussão que tenho que resolver de uma vez por todas…).

Exemplo de texto marcado com notas de revisão
Exemplo de texto marcado com notas de revisão
Principais marcas e notas de revisão explicadas
Principais marcas e notas de revisão explicadas

Começam, desde cedo com a explicação das marcas de revisão. E explicam de forma bastante inequívoca (se bem que menos completa do que os manuais anglo-saxónicos mais recentes) todas as formas de anotação e revisão para devolver aos revisores/compositores.

No entanto, o livro está recheado de pequenas pérolas para quem estiver a olhar com atenção. Mal se abre, logo a primeira página (do miolo) revela uma decisão invulgar: um título, 3 linhas de texto, e depois um grande bloco de notas.

Nota da nota de rodapé
Nota da nota de rodapé

O mais curioso desta abertura é que, nas primeiras linhas há uma nota (grande) de rodapé. Tão grande que a própria nota de rodapé, a dada altura, tem uma nota de rodapé… uma nota de uma nota… confusos? Também eu… Acho que foi a primeira vez que vi algo assim. Nem sequer sei se isto é possível. Mas, no resto do livro devem ter-se arrependido desta  decisão e partem as notas por múltiplas páginas.

Pormenor da composição da última página e índice geral
Pormenor da composição da última página e índice geral

O índice (no final) agrupa linhas e tópicos com recurso a uma chaveta, fazendo a chamada para múltiplas páginas (reparem no espaço que fica entre o bloco principal e os números de página… terão colocado uma regreta para compor a largura, separando as duas colunas?)

Filetes de maior uso na Tipografia (com nomes e espessuras)
Filetes de maior uso na Tipografia (com nomes e espessuras)

A meio do livro podemos encontrar uma página com a referência aos filetes (linhas finas) mais utilizados. O que me chamou a atenção foi o facto de cada um destes estar identificado pelo “nome-de-guerra”, seguido da espessura habitual. Imagino que isto funcionaria como que um catálogo, um espécimen de filetes para serem pedidos por nome.

Mais curioso ainda é que, na página ao lado, os autores dão-se ao trabalho de explicar o horário de trabalho normal de um compositor/revisor, de 7 horas de trabalho diário [esta classe profissional destacou-se durante o século XX em Portugal, reivindicando condições que na altura eram bastante progressivas]. Novamente, imagino que isto serviria para “educar” os clientes que não podiam ter as coisas resolvidas quando queriam, nem para ontem — o trabalho leva tempo!

Pormenor do espécimen
Pormenor do espécimen
Pormenor do espécimen
Pormenor do espécimen
Espécimen de tipos com os respetivos nomes de famílias
Espécimen de tipos com os respetivos nomes de famílias

E, para meu deleite e surpresa, incluem um anexo dobrado com um espécimen de tipos, com o nome das categorias — esta foi a “cereja no topo do bolo” para um obcecado por sistemas de classificação tipográfica como eu. Na sua maioria, nada de novo, mas tenho que confessar que adoro a forma tosca como identificaram os diferentes “Normandos” (Românticos / Modernos / Didones) e os “Antigos (Modernos / Linéales / Grotescos).

Termos técnicos
Termos técnicos

Listam alguns termos técnicos — do qual destaco o “Parangonar”, que adoro! — e usam uma linguagem arcaica que já não se houve e é cada vez mais difícil de conhecer uma vez que cai no esquecimento à medida que os velhos tipógrafos desaparecem…Enfim. Estes manuais antigos, compostos com cânones e regras aprendidas em vários anos de “coup de pied au cul” fazem-me pensar que a aprendizagem que nós temos (que eu tive) está realmente limitada ao que o software faz, ou permite fazer — Microsoft Word, estou a falar de ti!. É pouco variada, pouco rica nestas nuances “do antigamente”. Mesmo que desatualizados, incompletos, ou incorretos, estes manuais são pequenas pérolas editoriais que me deixam sempre a pensar — afinal quais são as regras do jogo? Então isto pode-se fazer assim? Porque é que eu nunca vi, nem aprendi a fazer isto assim?É isto que me faz continuar a perseguir livros…


[1] Sobre estes — os travessões — eles usam as regras gramaticais vigentes: o travessão serve como um parênteses numa oração, ou ainda para marcar e separar o discurso direto. O que eles não explicam, é como se compõe. Diz o ciberdúvidas (e as gramáticas) que o travessão deve ter um espaço antes e depois. Ora bem, os compositores deste livro usam espaços, mas são diferentes dos espaços entre palavras. Usam hairline spaces. O que me deixa com a pulga atrás da orelha. Ao observar o que me estão a mostrar na página, e a explicar o seu uso, fico com a séria suspeita de que a “regra” de colocar espaços antes e depois dos travessões é uma herança do tempo em que o chumbo não permitia compor os carateres de forma tão compacta como atualmente. O que acontecia é que nestes trabalhos correntes as palavras ficavam geralmente com um grande espaço entre elas (tracking). E, ao compor um travessão, tinham que abrir o espaço, sob pena de chamar demasiada atenção para este.

Atualmente, tanto no ecrã, como impresso, conseguimos um texto bem mais compacto. Apesar de neste artigo estar a ensaiar a escrita com o travessão composto com espaços, acho que vou voltar/continuar a inserir o travessão sem espaço…

 

Author: Pedro Amado

Professor Auxiliar na Universidade de Aveiro a leccionar Design de Interação

2 thoughts on “Mata-gralhas”

  1. Nesta legenda “Pormenor do canto da cercadura de uma caixa—o canto está… por fechar?” o travessão está sem espaços. Heheh ;-) A regra que eu uso é: o travessão sem espaços ou, em alternativa, o meio-traço (en dash) com espaços antes e depois. Quando o tracinho está entre números, uso o meio-traço sem espaços (não gosto de separar números com hífen). Quanto às aspas, confesso que não aprecio muito as portuguesas, e desconhecia que sugerem a utilização dessas: ficam demasiado vincadas, e geralmente a intenção do texto é a oposta.

    Cheio de inveja tua por teres esse livro e eu não!

    1. Ah!… apanhado ;)

      Sim, concordo contigo nessa abordagem. Em português parece que usar o “—” (travessão) ou o “–” (meio-traço) com os espaços são práticas comuns. No entanto, se for discurso direto “deves” usar o travessão (em dash).

      Em relação ao meio traço entre números, sim. Aliás, normalmente a regra até é bastante explícita—não se deve usar o hífen para separar números.

      As aspas, essas são prática corrente de editoras mais clássicas, como a Afrontamento. O meu pai mostrou-me algumas gramáticas antigas e realmente lá estavam! Estou a dizer de cor, mas imagino que em editoras com trabalho mais corrente (romances?) e anglo-saxónico essa revisão às aspas é mais folgada…

      Tenho que encontrar uma gramática, ou um prontuário atualizado que tenha estas questões resolvidas (e de forma convincente) de uma vez por todas! Obrigado pelo feedback ;)

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