Livros de Metodologia para planear, conduzir e redigir trabalhos de investigação

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© Daniela Winkler, Unsplash.com

Amanhã (ou melhor, daqui a umas horas) vou fazer, Hoje, a convite da prof. Lídia Oliveira, fiz uma breve apresentação de metodologias e abordagens de investigação na disciplina de Seminário do Mestrado em Comunicação Multimédia.

Vou falar Falei da minha experiência de doutoramento (sobre o uso de várias abordagens de recolha de dados). Já o fiz no ano passado e este ano queria dar qualquer coisa diferente. Este ano partilhei de novo um par de dúvidas e experiências recentes na preparação e redação dos artigos para o 7ET. E, se tudo correr bem, tal como planeado com a aluna Rita Albuquerque, ainda deu tempo para levantar o véu da investigação empírica que vamos desenvolver sobre legibilidade em dispositivos digitais e fazer “something completely different!” (foi uma simulação de um teste de leitura com eyetracking!)

[update]

Os slides estão no Moodle da UC de Seminário. Ou então no meu Speaker Deck: https://speakerdeck.com/pedamado/seminario-mcmm

 

Mas o que me traz ao blogue hoje é diferente. Isto é, no âmbito desta apresentação, falo sempre em muitos livros. Tantos que acho que fica toda a gente às aranhas. Por isso, hoje decidi retirar as referências dos slides e, de madrugada, decidi fazer este artigo no blogue que já estava devido há muito — uma recomendação de livros essenciais para planear, conduzir e redigir trabalhos de investigação (relatórios, artigos, dissertações, e doutoramentos). Ordenada e comentada.

É claro que esta lista é uma opção pessoal. Encerro nesta lista a minha experiência e (muitas) preferências que acumulei desde o início do mestrado. Não sei se terá a maturidade que deveria ter… isto é, tenho pensado em fazer este post e a sessão de amanhã precipitou-o. Quero que isto seja o espaço para centralizar, partilhar e atualizar. Cedo demais ou não, já era tempo de o fazer.

A lista está dividida em 2 secções:

  • Livros absolutamente fundamentais para quem faz um mestrado ou doutoramento. Os livros que, se pudesse, diria: — “querem fazer um mestrado? Têm que ler estes!…”;
  • Livros adicionais que tenho descoberto/usado para por em uso metodologias específicas (no meu doutoramento, ou em algumas situações pontuais).

Estou na dúvida se vale a pena fazer uma lista de contenders… Acabei por listar no fim os livros que se destacam de alguma forma. Talvez a faça no futuro. Por isso, sem mais demoras, aqui fica a lista.


Livros Fundamentais

O primeiro é um livro básico. Para aprender a escrever (sem isto não dá!)

Pereira, A., & Poupa, C. (2003). Como escrever uma teste monografia ou livro científico usando o Word. Book, Lisboa: Sílabo.

9789726185116

Quando vi este livro na FNAC (devia ser 2003, ou 2004?), quase que me desmanchava a rir!… Para além de ter uma capa terrível (os autores e editores que me desculpem… é mesmo muito má!), quem é que precisa de saber usar o Word?! (pensava eu no alto da torre da minha arrogância informática…).

Olhei para ele, uma. Olhei para ele duas. Olhei três e quatro vezes… nem sei quantas (naquela altura ia muitas vezes à FNAC!). A dúvida instalou-se e cresceu… A coisa incomodou-me tanto que acabei por comprar depois de folhear várias vezes e aperceber-me que não sabia nada daquilo. Pois bem… pelos vistos, eu (e 99% das pessoas com quem falo), nem ninguém sabe usar o Word como deve ser (é preciso escrever isto em maiúsculas?). E adivinhem? É bom que aprendam rapidamente!

Para além de dicas como usar aquelas protuberâncias que se esticam para lá das mãos — os dedos! — para escrever como deve ser, aplicar estilos, fazer cabeçalhos, secções, índices automáticos, etc., os autores ainda explicam sucintamente como citar, como estruturar um documento. Enfim. Teses for dummies! ;)

O segundo é sobre o processo de investigação em ciências sociais.

Coutinho, C. P. (2011). Metodologia de Investigação em Ciências Sociais e Humanas: Teoria e Prática. Coimbra: Almedina.

9789724051376“Ah, e tal, mas isto não é aplicado às tecnologias digitais…”. Leiam o livro. Ou “…mas isto não é investigação em Design…”. Calem-se e leiam o livro. “já tenho um livro muito fixe do ano 2000 que me recomendaram antes…” (sim, eu sei!). Calem-se e leiam o raio do livro de uma vez por todas. Eu sei.

Pessoalmente, comecei com o Eco… passei pelo o Quivy (na realidade não passei da primeiras páginas e só o voltei a ver anos mais tarde no doutoramento…). Usei o Creswell… e a Joan Bolker… enfim… No final, este foi (e ainda é) o que mais gostei (e melhor compreendi!). Explica tudo desde o início, sobre o que é investigação. As várias abordagens. Como redigir um relatório/dissertação. Sem grande palha. Sem entrar em demasiado detalhe.

Mas uma das mais valias é que a autora sintetiza de forma muito compreensiva e organizada os vários tipos de planos de investigação — é fácil começar aqui e completar a leitura do que queremos em profundidade nas referências dela. Apresenta também os métodos normalmente associados às diferentes metodologias. Um autentico livro de receitas. Ah, não esquecer o cheat guide no final que é bestial ;)

O terceiro e último livro essencial sem o qual não podem passar é o da Anabela Mesquita.

Correia, A. M. R., & Mesquita, A. (2013). Mestrados e Doutoramentos. Porto: Vida Económica.

mestrados-e-doutoramentosAs autoras conseguiram aqui uma proeza digna de mérito. O livro tem várias secções que devem ser lidas (diria mesmo todas!). Mas, para mim, o livro vale a pena nem que seja pelos dois capítulos que mais uso (e reutilizo constantemente!). O capítulo 2, onde as autoras apresentam a estrutura (e o que se deve incluir) em cada capítulo dos trabalhos. Uma espécie de modelo (já aqui falei disto antes). Gostava de ter tido este modelo (ou conhecimento dele) antes, ou mesmo durante o meu mestrado (e em muitas fases no doutoramento, até porque…). De seguida, o capítulo que mais aprecio neste livro e que ainda não encontrei de forma tão eloquente em mais nenhum lado, é o capítulo 12 — como fazer a revisão de literatura (e os vários tipos que existem). Bom. podia ficar toda a noite a falar deste livro. Mas o melhor mesmo é comprarem-no. Não é caro. Vale todos os cêntimos!

Tenho outros, que usamos no MCMM e que recomendo — cá está, uma lista de contenders. Normalmente quando os anteriores não têm o que preciso (especialmente em research design) recorro ao:

  • Bryman, A. (2012). Social Research Methods (4th ed.). London: Oxford University Press.

Este é excelente, na realidade. Descobri-o tarde, já no final do doutoramento… tarde demais. Mas tenho recorrido várias vezes para tirar dúvidas.

  • Gray, D. E. (2004). Doing Research in the Real World (1st ed.). London: SAGE Publications.

Este também é muito bom, especialmente porque “encaixa” bem nas áreas de Ciências e Tecnologias da Comunicação em que tenho estado a trabalhar. é também um dos livros recomendados na UC de Projeto de Dissertação, por isso…

Enfim, há de certeza muitos mais (nem imaginam a quantidade de livros sobre metodologia que ganham pó cá em casa…). Mas estes são os que reutilizo constantemente. Estes, para já (até descobrir os próximos), são os livros que considero fundamentais. E, sem mais demoras para a segunda parte da lista.


Livros adicionais para Metodologias específicas

Aqui, desculpem, não vou ilustrar… vou correr esta lista apenas nas referências brevemente comentadas (para que uso cada um). São muitos. Demasiados. Mas o objetivo desta segunda parte é diferente. Enquanto que os livros da primeira são fundamentais para qualquer trabalho. Nesta segunda, a ideia é dar a conhecer para que serve/uso cada um, de forma a ajudar selecionar o livro que precisamos para o método que a usar. É claro que não tenho livros para todos os métodos, ok? (aceito sugestões!)

Análise Quantitativa e SPSS

Field, A. (2009). Discovering Statistics Using SPSS. London: SAGE Publications.

Há muitos! Na formação que fiz, usámos o Howell. Mas confesso que é muita matemática e estatística aqui para o artista. O Field explica os conceitos estatísticos, como fazer os testes, que cuidados ter a interpretar os dados e como apresentar os resultados. Linguagem porreira e acessível. Ei! Se eu consigo entender este livro de estatística, então qualquer um consegue! Já não há desculpas… ;)

Análise Qualitativa e de Conteúdo

Tracy, S. (2013). Qualitative Research Methods: Collecting Evidence, Crafting Analysis, Communicating Impact. Chichester: Wiley-Blackwell.

(Aqui, na realidade, confesso que também gostei da abordagem da Bardin… Foi a minha colega a Prof.ª Maria João que me recomendou. Mas quem me explicou/demonstrou isto de forma muito clara, da última vez, foi a Prof.ª Catarina Silva). Mas a Tracy, para mim, explica melhor. Ainda por cima sugere modelos para organizar e registar os dados. Muito completo e referenciado. E pode ser usado em sala de aula — tem atividades (adoro este tipo de livros!). Não é preciso mais nenhum… Como ainda não uso o NVivo, nem tive necessidade disso, não tenho manual técnico para recomendar sobre análise em software como o Field.

Usabilidade e Testes de Utilização

Rubin, J., & Chisnell, D. (2008). Handbook of Usability Testing: How to Plan, Design, and Conduct Effective Tests. John Wiley & Sons.

Nielsen, J. (1994). Usability inspection methods. Book, ACM New York, NY, USA.

Bom. Aqui a lista é definitivamente enoooorme! Mas volto sempre a este para o protocolo de como preparar, conduzir e apresentar resultados de testes de usabilidade. É impossível, claro, deixar de referir o Nielsen (site e vários, muitos! livros). O site Usability.gov, ou mesmo a dissertação do Hugo Ribeiro. O Steve Krug também deveria aparecer aqui, mas o livro dele não é propriamente de investigação… Mas já estou a divagar… e já que estou a divagar…

User-Centered Design (investigação de desenvolvimento?)

Lowdermilk, T. (2013). User-Centered Design: A Developer’s Guide to Building User-Friendly Applications. Sebastopol: O’Reilly Media.

O’Reilly. ‘nuff said. Na realidade é um bocado injusto estar aqui este e não estar Interaction Design (Sharp, Rogers, & Preece, 2007), o Human-Computer Interaction (Dix, Finlay, Abowd, & Beale, 2004), o About Face 3 (ou 4): The Essentials of Interaction Design (Cooper, Reimann, & Cronin, 2007), Designing the User Interface: Strategies for Effective Human-Computer Interaction. (Shneiderman, & Plaisant, 2004), Don’t Make Me Think: A Common Sense Approach to Web Usability (Krug, 2006),… ou… Mas estes não são propriamente livros de investigação, mas mais de desenvolvimento e UX / IxD / HCI / Interaction Design. Por isso, vão ser alvo de um outro post no futuro. Para requisitos, e processo o Lowdermilk é interessante. É desenvolvimento, não é bem metodologia de investigação. Mas achei que merecia estar aqui por causa do processo.

Inquéritos e Questionários

Hill, M. M., & Hill, A. (2009). Investigação por Questionário (2nd ed.). Lisboa: Sílabo.

Volto também sempre aos mesmos. Este é um pequeno grande manual sobre como preparar e conduzir uma investigação ou parte dos métodos que usam questionários. (vejam também a lista de contenders, para como conduzir questionários à distância).

Contextual Design

Holtzblatt, K., Wendell, J. B., & Wood, S. (2005). Rapid Contextual Design: A How-to Guide to Key Techniques for User-centered Design. San Francisco: Elsevier / Morgan Kaufmann.

Não precisa de explicação este… o título diz tudo

Teoria Fundamentada

Charmaz, K. (2009). A construção da teoria fundamentada: guia prático para análise qualitativa. Porto Alegre: Artmed.

Bom, este, a realidade descobri-o na Sarah Tracy, no qual gosto mais da explicação. O Designer e Prof. João Santos mais tarde emprestou-me uma cópia traduzida desta autora, o que ajudou a ler. Não é o livro mais fácil do mundo. Mas, para conduzir um trabalho de imersão (por exemplo) num ambiente profissional de design, ou multimédia, em que se avança apenas com um proposição difusa para tentar conduzir uma investigação e nada mais, este é um bom manual para seguir. Continuo a preferir a Sarah Tracy…

Design Research

Laurel, B. (2003). Design Research: Methods and Perspectives. Cambridge: The MIT Press

Tenho este livro e já o tentei usar várias vezes. Como metodologia e abordagem generalizada aos problemas do design associados à investigação é muito interessante. Mas, creio que ainda não estou preparado para ele. Acabo por não o conseguir usar “diretamente”. Vai ser interessante daqui a alguns anos voltar a ver se o uso ou não. Independentemente do que eu acho, é um livro interessante e muito importante na investigação em design. A autora aparece de forma recorrente noutras obras e tem textos escritos que muito admiro!

[update]

Agora mesmo, durante a sessão, o Prof. Carlos Santos mencionou que usou uma metodologia de Design Based Research. Lá está… não tenho, nem sequer me arrisco a dizer que conheço metodologias suficientes. Estamos sempre a aprender. E eu, acho que vou dar uma vista de olhos à tese dela agora mesmo. Aqui:

Redação e Normas (APA 6 ed.)

APA. (2010). Publication Manual of the American Psychological Association (6th Revise). Washington: American Psychological Association;

4200066-475Last, but not least! Quase que me esquecia deste… de tão óbvio que é?! Com os múltiplos recursos existentes na UA — a biblioteca tem um manual publicado online muito interessante de explorar — e as dúvidas que se tiram online, às vezes este escapa-me da memória. Mas vou lá sempre voltar para tirar dúvidas. P. ex. onde deve aparecer o título de uma tabela? E a legenda? Quantos autores podem aparecer na citação em texto?… Trivialidades importantes destas.

É muito mais do que um simples guia de normas para aplicar a 6 edição da norma. É um autêntico tesouro sobre a forma e o conteúdo que este tipo de trabalhos devem ter e como se organizar. Aprendo sempre coisas novas quando pego nele (está ali no banco a olhar para mim…). É tão importante, que decidi colocar uma imagem ;)

Este manual impresso não só é completo, como também tem montes de fichas, imagens e templates disponíveis online: http://www.apastyle.org/manual/. E como se isso não bastasse, ainda têm o blogue para tirar dúvidas menos frequentes como abreviaturas, ou citar outros materiais incomuns como Podcasts e Conferências no Youtube: http://blog.apastyle.org/

Só não o coloquei nos manuais fundamentais, porque as recomendações estão estritamente vinculadas com a forma como se usa o modelo da APA.


Methodology contenders

  • Bell (2005) Doing Your Research Project;
  • Creswell (200?) Qualitative quantitative and mixed methods
  • Flick, U. (2009). An Introduction to Qualitative Research
  • Dillman, Smyth, Christian (2014). Internet, Phone, Mail, and Mixed-Mode Surveys;
  • Landauer (1988). Research Methods in Human-Computer Interaction;
  • Lazar, J. Feng, J., Hochheiser, H. (2010). Research Methods in Human-Computer Interaction – Caps 14-15;
  • Mackenzie (2013) Human-Computer Interaction – An Empirical Research Perspective;
  • Creswell (2007). Qualitative Inquiry & Research Design: Choosing Among Five Approaches;
  • Silverman (2014) Qualitative Research: Teory, Method & Practice;
  • Quivy (2005) Manual de Investigação em Ciências Sociais
  • Silverman (2008) Doing Qualitative Research (há uma edição “nova” de 2013 que já vi… mas não tenho… e acho que não vou comprar…);
  • Noble, Bestley (2005). Visual Research: An Introduction to Research Methodologies in Graphic Design (meh… a AVA tem destas coisas — excelentes títulos, conteúdos medianos…);

De certeza que ainda há mais que não me estou a lembrar. E de que há muitos, muitos mais em uso pelos meus amigos e colegas. Fica aqui uma lista inicial. E o repto para me deixarem um comentário com os vossos livros de metodologia!

Author: Pedro Amado

Professor Auxiliar na Universidade de Aveiro a leccionar Design de Interação

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