Como planear e conduzir um projeto (de mestrado)

Screenshot 2019-07-17 14.04.44.png
Cronograma genérico das atividades a desenvolver durante  ano letivo dedicado à dissertação de mestrado

Com o ano letivo a terminar (parece que nunca mais se espremem os “finalmentes”), alguns alunos apresentam os projetos que terminaram (a tempo, ufa!). E outros começam a preparar os que vão desenvolver no próximo ano.

O que nem sempre fica claro nestass conversas iniciais que já estão a decorrer é a urgência, o tempo curtíssimo que têm para fazer tudo o que precisam.

Quer dizer, é excelente eles já nos procurarem para afinar os projetos neste final de ano. Mas, à distância, o prazo de término em maio (sim, porque a entrega é no início de junho e ainda é preciso rever e corrigir que demora sempre 15 a 25 dias!) parece sempre que dá tempo suficiente. Mas não!

Este post é o último (acho?) da série académica, onde explico, ou melhor [d]escrevo o que normalmente explico aos alunos durante as orientações para o segundo ano.

Normalmente, o início o primeiro ano letivo do mestrado deveria terminar com o desenho de uma proposta de trabalho (research proposal) que inclui objetivos, antecipação de resultados, um modelo de análise/concetual resumido com os principais autores e conceitos esboçados. Bem como um calendário de atividades. Isto permitiria até ir “namorando” os orientadores e afinando o projetos para evitar coisas “caídas do céu”, ou que não se enquadram nas atividades dos orientadores, unidades de investigação, ou produção nuclear do programa de estudos… Pois bem. Isto não acontece normalmente. Ou, pelo menos, não me tem acontecido a mim.

Por isso, para ajudar todos aqueles que estão a arrancar o trabalho, aqui vai uma descrição cronológica das atividades. Não preciso de lembrar que reflete apenas a minha opinião / abordagem pessoal, certo? Há outras abordagens (melhores, piores, diferentes?) e que produzem resultados diferentes consoante os diferentes estudantes.

1. Resumo

Neste caso, o ideal (e o que já provou funcionar bem com um punhado de estudantes) é falarmos/definirmos o projeto antes das férias. Fazer um par de reuniões para esboçar esta proposta, já em modo de dissertação. Isto é, começar por um esboço do Resumo do trabalho. Isto permite fazer uma auto-avaliação do estado/conhecimento do projeto.

Deverá ser retomado e finalizado como a última tarefa do trabalho.

2. Outline

Uma vez identificadas as áreas que se conhecem bem (e as áreas mais frágeis), a partir do resumo deve-se fazer um modelo de análise / concetual. normalmente chamo a isto um outline identificando os principais conceitos/técnicas/autores/obras que se vai explorar. Isto permite informar — de forma informal ;) — qual a revisão de literatura que se vai fazer. Ao mesmo tempo, se for feito atempadamente, permite que cada um de nós vá para férias com o assunto “em pano de fundo”. Isto é, nunca se esquece realmente, e permite ir fazendo associações, descobrir novas leituras e estar preparados quando o trabalho começa realmente.

E, claro, deste outline sairá o índice do projeto.

3. Introdução (research proposal)

Todos os trabalhos começam pelo princípio. Pois bem. Tendo um resumo e um outline é importante criar um primeiro documento (que será mais tarde a introdução) que introduza ou apresente o plano de investigação. Um rascunho. Nada melhor do que consultar a Correia & Mesquita (ou outro manual?) para desenhar a proposta ou plano de trabalho.

Apesar de ser numa fase inicial, deve-se tentar rascunhar todos os tópicos necessários à introdução. Incluindo um Índice (sumário, anotado? que irá dar origem à estrutura do trabalho) e o desenho de um Cronograma de trabalho (e o respetivo plano “b”) que irá fazer parte da metologia. O meu conselho aqui é planear para acabar TUDO no início de maio. Assim dá tempo para o orientador ler com calma (todos?) os trabalho(s) e fornecer um feedback construtivo e não apenas uma leitura superficial. E, por sua vez dá tempo para paginar, encadernar… enfim, tornar coisa perfect!

A Introdução deverá ser retomada como a penúltima tarefa do trabalho.

E isto encerra a fase de preparação do trabalho. Até aqui, idealmente, deveria ser o trabalho que antecede o ano de investigação e que pode ser desenvolvido (com orientador?) ainda durante, ou no final do semestre letivo (por exemplo nas UCs de projeto ou Metodologia?), como estou a fazer com alguns estudantes agora…

4. Enquadramento / Lit Review / Estado da arte

Bem vindos à fase de trabalho propriamente dito!

Todo e qualquer trabalho, feito de forma responsável, deve começar por um equadramento. Quem é que já fez, ou está a fazer o mesmo. E, naturalmente, deve começar pela pesquisa na biblioteca/repositório da própria instituição, conhecendo o trabalho dos nossos colegas. Ainda ontem ouvi “andamos todos a fazer o mesmo”… e é verdade. O pelo menos seria o ideal! Isto porque revelaria que: 1) estamos a trabalhar todos na mesma área e por isso estamos no sítio certo ;) 2) podemos aproveitar o trabalho que já foi feito e melhorar, fazer mais, aprender melhor e mais rápido…

“Ah e tal… não muito trabalho feito na área…” A sério? Somos mais de 7 biliões no planeta, e a Internet permite o acesso a milhares de milhões de trabalhos, papers, sites, … No Comments. O pior que pode acontecer é chegar perto do fim e “ah… afinal há um trabalho ‘parecido’…”. Vá sejam honestos. Já o disse. Volto a dizer — se acham que o vosso trabalho é genuinamente original, não percam tempo com o grau e avancem diretamente para um registo de patente, ou para uma posição no mercado. A sério!

Mas enfim, Esta revisão deve ser feita para informar melhor o que se vai fazer. No caso dos projetos de desenovlvimento, compreender os padrões de interação, soluções visuais, arquitetura da informação é super útil. Esta fase parece simples, ou fácil. Não é. E não há muito tempo para a fazer. Dois a dois meses e meio no máximo.

Deverão ser revistos e atualizados quando se estiver a analisar os resultados do trabalho ou a escrever a conclusão.

5. Ensaio (opcional)

Porque a maior parte das dissertações e projetos que tenho vindo a acompanhar têm sempre uma vertente empírica (uma aspeto que defendo veementemente), o ideal será fazer paralelamente à Litreview um ensaio do projeto / atividades que achamos que vão ser desenvolvidas. Isto, para pessoas mais práticas, ajuda a afinar o que se precisa de estudar. Também ajuda a perceber as fases ou atividades que se tem que planear na metodologia.

Deve ser rápido e compreensivo, tentando já utilizar as tecnologias finais.

6. Metodologia

Bom. Aqui não há grande coisa a acrescentar. Depois de se estudar e saber como conduzir o processo que se vai desenvolver, basta planear, descrever, e construir os instrumentos necessários.

Nos últimos tempos tenho tido grande dificuldade em enquadrar / dar nomes / colocar em gavetas os projetos com que tenho tido contacto. Nas Ciências Sociais, ou no HCI as abordagens, planos e metodologia estão bem organizadas e facilmente conseguimos identificar e desenhar um plano e instrumentos. Quando se trata de um projeto de design gráfico é mais difícil. Podem ser (e defendo que sejam) enquadrados nos planos e  metodologias habituais. No entanto, acredito que há um manual que tenha isto bem sistematizado, mas admito aqui a minha fragilidade.

Normalmente quando são mesmo específicos de design de comunicação (p. ex. criação de objetos como livros que poderia ser descritos como Investigação de Desenvolvimento), as atividades não ecaixam de forma “limpinha”. E, claro, os estudantes que enveredam por estas abordagens mais práticas, têm uma elevada resistência ao “research-driven design” e à triangulação. Acabo por recomendar a Brenda Laurel, o Ian Noble, O Christopher Frayling, o Rui Costa… mas confesso que sinto que ainda falta qualquer coisa mais fácil (ei… afinal de contas sou um defensor dos cheatguides e dos templates!)

Screenshot 2019-07-17 13.26.01
A Designer’s Research Manual, Jennifer Visocky O’Grady, & Ken O’Grady (old edition…)

A propósito disto, hoje, numa nova pesquisa encontrei um manual novo (já no carrinho de compras) que aflora estas questões e que coloca alguns nomes nas metodologias (como o o processo de design iterativo, ou o modelo double-diamond do Design Council). Digo “aflora” porque é típico destes livros da Rockport — broad & shallow… Mas apesar da capa (há uma nova edição de 2019), o livro é muito orientado ao processo User-Centered Design. E, apesar da organização estar longe da ideal (os livros do Bryman ou da Coutinho são muuuuiiiito mais claros neste aspeto), acaba por descrever abordagens e processos que podem estes sim sintetizar a metodologia num parágrafo.

E bom. Termina a fase de planeamento e preparação. A partir daqui deve ser claro o que vai e como vai acontecer.

7. Mid-term Presentation / Paper

No final da Litreview e Metodologia o trabalho deverá estar pronto para uma apresentação e defesa pública. Deve ter consistência e clareza. O ideal seria fazer uma “banca” para a equipa perceber se o porjeto é claro, relevante, etc. para os observadores externos.

Concebendo isto idealmente, era a fase onde se redige um artigo com uma revisão de literatura e apresentação de uma proposta ou modelo original para o que se vai desenvolver. Este será um dos 3 principais outcomes do projeto.

E, claro, ajuda a auto-avaliar o projeto. Qunato mais fácil for escrever ou apresentar isto, mais claro será o projeto.

8. Desenvolvimento do Projeto e Análise de Resultados

Bom. Aqui não tenho nada a dizer. É só fazer o que se planeou na metodologia. Se já se ensaiou, já se sabe a dificuldade. Se não se ensaiou, tem que se alocar mais um mês ou assim. De qualuqer forma, não há grande tempo para fazer as atividades. Apenas dois a dois meses e meio… Caso contrário, não dá tempo para analisar / triangular os dados / resultados para poder verificar o cumprimento dos objetivos estipulados.

9. Conclusão.

Nada a acrescentar para além do que já descrevi. É só reservar um par de semanas para ter a perceção do que se fez e “casar” os objetivos, a teoria e a prática. ‘Nuff said!

Aproveitar para rever e atualizar o enquadramento e o estado da arte — afinal de contas nunca se para de pesquisar, certo?

10. Rever a introdução e o resumo (e todo o trabalho)

Não esquecer. Agora sim, juntamente com a conclusão, estas são as secções mais importantes do trabalho. Devem ser claras e objetivas, refletindo o que foi realmente feito e ajudando a “ler” tudo.

Rever, atualizar. Aproveitar para ler todo o trabalho e fazer uma auto-avaliação do trabalho.

11. Final Presentation / Paper

Agora é só resumir e preparar uma apresentação final clara, objetiva, ilustrada, completa.

Idealmente, na altura da escrita da conclusão, após o trabalho feito, ou enquanto se aguarda a defesa do mesmo, deve-se tentar criar um artigo curto (2500–6000 palavras) do trabalho e submeter a uma conferência, exposição, ou journal… Isto é a derradeira prova de fogo.

Bom, no final do dia, é sempre importante lembrar que, sem ler um livro de metodologia, ou sem prestar atenção às aulas do primeiro semestre a coisa corre sempre pior. Como tar

 

 

Author: Pedro Amado

Professor Auxiliar na Faculdade de Belas Artes Universidade do Porto lecionar Ferramentas Digitais, Web Design, Design de Interação e Creative Coding

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s