5ET: Dia 1

Pequeno passeio pelo campus no intervalo do almoço do 5ET
Pequeno passeio pelo campus no intervalo do almoço do 5ET

O primeiro dia de conferências do 5º Encontro de Tipografia começou radioso. O tempo estava ótimo—um dia de inverno frio, mas cheio de sol—, o que é raro nesta altura do ano. Chegados ao CI&D, dirigimo-nos à receção, onde fomos prontamente acolhidos. Encontramos amigos, colegas e conhecidos, como o Vítor Quelhas, o Dino dos Santos e o Pedro Leal, o Luís Moreira, e o Yves Peters. Tive finalmente a oportunidade de conhecer a Tiffany Wardle pessoalmente (apesar de já termos interagido muito online, nunca nos tínhamos cruzado). Apresentados e instalados, fomos conversar um pouco, enquanto o Miguel Sousa preparava a conferência no auditório.

Confesso que estava um pouco ansioso, porque o dia estava recheado de boas apresentações (como tive oportunidade de referir anteriormente) e ainda havia muito trabalho pela frente (como, por exemplo, acabar de preparar o painel Ligatures com a Tiffany, e a comunicação da ATypI). Eventualmente, fomos para o auditório, onde o Miguel já tinha iniciado o seu keynote.

Esta entrada resume, basicamente o keynote do Miguel Sousa e a discussão dos convidados (e contributos do público) do painel do primeiro dia da conferência. Sem mais demoras…

Conferência do Miguel Sousa

Fotografias da história do departamento Tipográfico da Adobe no Keynote do Miguel Sousa. Na imagem um "S" de Robert Slimbach (?)
Fotografias da história do departamento Tipográfico da Adobe no Keynote do Miguel Sousa. Na imagem um “S” de Robert Slimbach (?)

Não tirei muitas notas na conferência do Miguel… isto é, tirei menos do que gostava. Mas é fácil perceber porquê—estava completamente absorvido nas palavras e imagens que estavam a ser projetadas.

O Miguel fez um apanhado sobre a história e evolução dos formatos tecnológicos de desenvolvimento de tipos de letra, no enquadramento do aparecimento da indústria de Desktop Publishing (DTP)—na linha do que descreve sucintamente no seu relatório de estágio de 2002—, de forma brilhantemente ilustrada através de fotografias de época [o Miguel mais tarde mencionou de quem eram as fotos, mas confesso que já não me consigo lembrar]. Para além de um conhecimento muito próximo da história e identidade corporativa da Adobe, o Miguel acabou por nos dar mostrar imensos espécimenes—como o Adobe Laserwriter Plus: Type Specimen Book—, entre outros autênticos objetos de desejo [a minha lista de compras no ebay acabou de crescer exponencialmente!… Vejam aqui uma lista de espécimens da Adobe].

Detalhe de um spread de um Type Specimen da Adobe (com fotografias e perfis de Twombly e Slimbach)
Detalhe de um spread de um Type Specimen da Adobe (com fotografias e perfis da equipa)

A sua apresentação começou [ou continuou] alguns anos antes de eu sequer imaginar o que era um computador. Voltando às origens da Adobe, descreveu o crescimento da “divisão” de tipografia do gigante de software. Na década de 80, a Adobe publicou o primeiro catálogo digital—o Adobe Type Library Catalog—onde já constavam 80 fontes [aqui acho que o Miguel se referia literalmente a ficheiros de fontes e não tipos de letra. Ainda assim, é um número impressionante… e mais um objeto de cobiça]. Estávamos 1986 [87?], o Windows tinha um pouco mais de dois anos, e o Macintosh pouco mais de um:

“[U]m ano antes do surgimento do Illustrator, a Adobe já estava a vender fontes”

O Miguel passou então a falar sobre tipos de letra específicos, e sobre a valorização do agora “departamento” de tipografia com o trabalho de pessoas como Robert Slimbach e Carol Twombly. Isto de forma interativa com o público, perguntando se reconheciam aqueles espécimenes “primitivos”. Sobre o primeiro designer, apresentou a Minion, descrevendo-a como uma “workshorse font” [um termo que também adotei recentemente a partir do Jason Santa Maria]. Estes tipos de letra foram fundamentais para provar o valor técnico e estético da equipa da Adobe—ao mesmo tempo que testavam todos os limites do software existente, muitas vezes usando características que ainda não estavam implementadas no software DTP da época. Um pouco como o que se passa hoje no uso de características OpenType nos browsers.

Wild Type Specimen Catalog
Adobe Wild Type Collection (Catálogo)

Falou-nos de um período louco do início dos anos 90, com o aparecimento do catálogo Wild Type Collection: “Lets be wild…” dizia o Miguel enquanto explicava que a Adobe queria agarrar um pouco do mercado [sucesso?] que as pequenas foundries mais experimentais, como a Emigre e mais tarde a Fuse, estavam a ter.

Exemplo de Multiple Master
Exemplo de Multiple Master

Sobre o testar os limites do software disponível, o Miguel falou num formato que me fascina desde o início da década de 2000—o formato Multiple Master. Aqui, confirmou o que já se sabia—o formato Multiple Master, apesar de ter sido desenhado para produção e uso em DTP, não encontrou sucesso nesta última área de aplicação. No entanto, como formato técnico e, acima de tudo, como conceito de desenvolvimento—, é ainda o formato que está na origem da produção e desenvolvimento de [famílias de ] tipos de letra atualmente.

“Multiple Master allowed to bring back the metal type ages”

[referindo-se ao eixo de ajustes óticos, específicos para diferentes corpos de um projeto de design editorial]

“It did not last long in the consumer environment. Although it still is used in production environment by type designers…”

Depois da primeira parte dedicada à história e à evolução dos formatos e plataformas tecnológicas, dedicou uma grande parte do seu keynote a referir o que é, para mim, atualmente o grande paradigma de expansão do Type Design—o desenho de tipos de letra não-latinos. Isto é, não só do grego e do cirílico que [nós ocidentais] ainda temos alguma tradição a desenhar. Mas especialmente as linguagens (ideográficas e de script) que vão ser “o próximo bilhão”— o Chinês, Japonês e Coreano (conhecidos como CJK) e os scripts indianos e arábicos, como a Adobe Kazuraki.

Tipos e Scripts CJK (Adobe Kazuraki)
Tipos e Scripts CJK (Adobe Kazuraki)

Referiu que a Warnock foi o primeiro tipo de letra [digital da Adobe?] a ter a versão Latina e Grega a ser desenhada ao mesmo tempo. Aprendi termos novos, como “Minchu” (ou mincho? Que quer dizer serifa e japonês). E fiquei verdadeiramente impressionado (tal como referia o espécimen fornecido no gift bag) que já há uma fonte—a primeira a ser desenvolvida no mundo—que utiliza todo o espaço de Unicode: a Adobe Source Han (Pan CJK) utiliza o limite de 65.000 carateres. Nunca pensei ser possível, mas a verdade é que parece que o Unicode não é suficiente para codificar todas as formas de linguagem do mundo…. vivemos mesmo num mundo complexo!

Mapa Unicode da Adobe Source Han… impressionante!
Mapa Unicode da Adobe Source Han… impressionante!

Pelo caminho, mostrou o trabalho feito com a fonte desenhada para a identidade corporativa da Adobe—a Adobe Clean—conforme estipulado no manual de identidade de 2010.

Adobe Clean: a tipografia corporativa oficial da identidade da Adobe
Adobe Clean: a tipografia corporativa oficial da identidade da Adobe

O Miguel terminou a conferência referindo as últimas evoluções tecnológicas, como a adoção de fontes nativamente pelos browsers (uma coisa que em 2009 ainda parecia impossível), ou as novas formas de distribuição que desafiam as empresas tradicionais (que também já tinha sido mencionado por Petr van Blokland no 2º Encontro de Tipografia). Mencionou ainda que, nos últimos 30 anos, esta indústria [de DTP] mudou muito. Mas que a Tipografia permaneceu como o seu núcleo. Apesar de todas as mudanças e evoluções emergentes, não espera que as “coisas” mudem assim tanto nos próximos tempos. Isto é, vão ser desenvolvidas mais fontes, mais produtos e mais tecnologia [pela Adobe], mas o essência do DTP irá permanecer a mesma.

Sessão de perguntas e respostas com o Miguel Sousa (moderado pela Teresa Cabral)
Sessão de perguntas e respostas com o Miguel Sousa (moderado pela Teresa Cabral)

Seguiu-se uma sessão animada de perguntas e respostas moderada pela Teresa Cabral, que já nos levou mais tarde para o almoço… E foi assim. Fiquei verdadeiramente impressionado pela conferencia do Miguel. Não só pela qualidade e quantidade de material exposto, mas também (agora à distância), pela fluidez com que uniu a história e evolução de uma plataforma tecnológica às dificuldades e desafios profissionais dos type designers (e designers editoriais). Tudo isto, conseguindo fechar o ciclo [do keynote] nos desafios atuais e futuros inerentes à ubiquidade das plataformas tecnológicas… Bravo Miguel. E obrigado. A abertura do 5º Encontro foi excecional!

Painel da Tarde

Alessandro Segalini a apresentar o projeto do Livro de Pessoa
Alessandro Segalini a apresentar o projeto do Livro de Pessoa

Apesar de não ter sido planeado, quero só destacar a qualidade do painel de comunicações da tarde. Das comunicações, a minha preferida, foi, sem dúvida a comunicação sobre o projeto editorial do livro de Fernando Pessoa do Segalini. Descreveu uma união perfeita entre o conceito de Pessoa—e a importância de conhecer o texto para o paginar—, e o projeto de design. Aspetos tão simples e curiosos como o próprio livro conter uma página zero. Sim, literalmente uma página com o número “0”… o design da grelha também me deixou muito bem surpreendido (e a pensar que não sou o único maluquinho a insistir na articulação das múltiplas grelhas tipográficas na página). Mais tarde, já no jantar de gala e depois numa boleia para o Porto, tive oportunidade de falar com ele e com a mulher e descobrir que, para além de um designer impecável é um tipo bestial!

Plateia recheada na sessão da tarde
Plateia recheada na sessão da tarde

Nesta altura, a plateia ainda se mantinha resistente, numa audiência bestial, o que foi muito bom para dar início ao painel de discussão da tarde.

Painel Ligatures

Tive o privilégio de ser convidado para preparar e moderar um painel de discussão com os Type Designers convidados Rui Abreu, Joana Correia, Dino dos Santos e Tiffany Wardle. Apresentei-os com uma breve síntese das notas biográficas de cada um, num breve parágrafo para cada. Seguido de uma pergunta simples para cada um se auto apresentar. Por fim, passando à discussão propriamente dita, foi feito um conjunto de 4 perguntas ,que refletiam muitas das dúvidas que vejo os alunos e futuros profissionais perguntarem de forma recorrente.

Estas tiveram a sua origem uns dias antes, quando tive oportunidade de trocar algumas impressões com eles por email. Formulei então um conjunto de perguntas, que fui dirigindo a cada um, conforme o seu perfil ou contributo esperado (embora todos os participantes na mesa, e na audiência, fossem encorajados a contribuir).

Dez minutos antes, sentamo-nos no palco do auditório e fizemos uma espécie de aquecimento, trocando alguns tópicos (e partilhei com eles o guião do painel), pelo que confesso que até nos tínhamos esquecido do painel, já a discussão estava tão lançada. Até que fomos convidados a subir para a mesa. O painel demorou um pouco mais de 1 hora e meia [verificar vídeos e notas em papel] e contou com a participação dos convidados e participantes na audiência.

Tiffany, Dino, Joana e Rui: painel de discussão Ligatures
Tiffany, Dino, Joana e Rui: painel de discussão Ligatures

Primeiro, as apresentações:

Rui Abreu (imagem da entrevista Creative Caracters)
Rui Abreu (imagem da entrevista Creative Caracters)

 

Rui Abreu é designer de comunicação formado nas Belas Artes do Porto. Lançou o seu primeiro tipo em 2006, e, a sua foundry r-typography.com em 2008. Type Designer premiado, tem trabalho publicado em diversas foundries e revendedoras como a T26, e a Fountain. Hoje em dia é impossível andar na rua sem ver o trabalho dele à volta de… NÓS! ;)

Joana Correia (Foto: Paulo Pimenta / P3)
Joana Correia (Foto: Paulo Pimenta / P3)

Joana Correia, é membro e colaboradora da Association Typographic Internationale (ATypI) desde 2010. Formou-se em Arquitectura pela FAUP mas corrigiu rapidamente esse desvio para explorar a paixão pelo design gráfico. Designer de Comunicação pela ESAD, Mestre em Typeface Design na prestigiada Universidade de Reading. Atualmente ensina Tipografia e Type Design na ESAD e desenvolve novos tipos de letra com empresas como a Google, SorkinType e a FontYou.

Dino dos Santos (Entrevista Creative Caracters)
Dino dos Santos (Entrevista Creative Caracters)

Dino dos Santos é o fundador da DSType. Membro do Type Directors Club e da ATypI, é um dos primeiros Type Designers profissionais portugueses, com diversos reconhecimentos e prémios, como o prestigiado Type Directors Club. Formou-se em Design de Comunicação pela ESAD, e lecciona atualmente Tipografia e Type Design no MGDPE na FBAUP. O trabalho dele encontra-se em publicações por todo mundo, como a Newsweek, New York Times Magazine. E é alvo de revistas como a Eye, ou a Slanted. E de livros como os anuários do TDC, ou o Creative Characters de Middendorp.

Tiffany Wardle de Sousa
Tiffany Wardle de Sousa (Foto: Work Inspiration)

Tiffany Wardle é Designer Gráfica de formação e possui um mestrado em Theory and History of Typography & Graphic Communication na Universidade de Reading. Esta Type Girl já foi professora adjunta de Design na Brigham Young University e instrutora do Type Camp. Como membro do conselho da SOTA e moderadora da comunidade online Typophile tem um olhar privilegiado sobre o panorama internacional de Type Design e Designers.

Seguiram-se então as perguntas. Começando com a batida “What is your favourite Typeface?” (Qual é o teu tipo de letra favorito?).

Esta era uma pergunta de aquecimento, só para dar a oportunidade de cada um deles se descrever, posicionando-se num objeto que todos nós pudéssemos identificar. Isso, ou que identificassem o que mais gostam— quase como “diz-me com que tipo escreves, dir-te-ei quem és!” ;)

Dirigi inicialmente a pergunta ao Rui. Ele confessou que não se mantém muito atualizado no que diz respeito ao lançamento de novos tipos de letra—ele identifica-se com os tipos de letra clássicos.

FF Tisa Specimen (Imagem do especimen: www.mitja-m.com)
FF Tisa Specimen (Imagem do especimen: http://www.mitja-m.com)

Já a Joana, quando lhe perguntei qual o seu tipo de letra favorito, ela afirmou que se mantém relativamente bem atualizada, através dos blogues. O seu tipo de letra favorito é a [FF] Tisa, de Mitja Miklavčič, especialmente por que a tem usado bastante na Web. E encontramos [lemos] bastante online. É também uma inspiração porque resulta de um projeto de mestrado de Reading [esta também é um tipo de letra identificado e utilizado por Jason Santa Maria como uma “workhorse font”].

Espécimen da Swift 2.0 de Gerard Unger (Site: Linotype)
Espécimen da Swift 2.0 de Gerard Unger (Site: Linotype)

Já o Dino, brincou e afirmou preferir não se definir através de um tipo de letra. Mas, quando provocado, afirmou que o seu tipo de letra preferido de todos os tempos é a Swift do Gerard Unger. Mantém-se atualizado, ou tenta manter-se em contacto com o design de jornais e revistas. O Dino acabou por definir-se melhor através da característica que mais preza num desenho de tipos de letra—a invisibilidade. Mas acaba por afirmar que todo e qualquer tipo de letra acaba por revelar o exercício [brincando com o trocadilho “exorcise”—exorcizar] de estilo.

Espécimen do Tipo Banco (site: indexgrafik.fr)
Espécimen do Tipo Banco de Roger Exocoffon (site: indexgrafik.fr)

Por fim, quando questionada, a Tiffany revelou a sua preferência e semelhança pela linha mais clássica do Rui. Mais especificamente pelo período modernista, clássico francês cujo expoente máximo foi representado por Roger Exocofon. Ela identifica-se, como fez questão de frisar, como Tipógrafa [Typographic Designer—Designer Editorial] e lida com estas questões de seleção e conjugação de forma muito próxima—como é que eu as conjugo de forma a fazer sentido de toda a informação.

Definidas todas as personagens, ou melhor, os quatro tipos, passamos à fase de perguntas e provocações.

Pormenor tipográfico do Manual de Identidade do NYTA (site: www.brightcreatives.nl)
Helvetica: Pormenor do Manual de Identidade do NYTA (site: http://www.brightcreatives.nl)

“Is there the need to have, or to design more Typefaces? Are there enough [typefaces] in the world?” (Há a necessidade de ter, ou de desenhar mais tipos de letra? Ou ainda, existe o lugar para desenhar novos tipos de letra?)

Esta pergunta era acima de tudo uma provocação. Conhecendo já o Dino, conseguia imaginar a resposta dele. Mas queria ver como os convidados e a audiência reagiam as potenciais posições—se, por um lado, podemos ter uma abordagem mais em linha com o Massimo Vignelli [apenas 5 tipos de letra], por outro lado podíamos ter presentes a posição de um Erik Spiekermann—nunca vai haver tipos de letra suficientes. Estava preparado para fazer advogado do diabo para ambas as posições. Mas acima de tudo, o objetivo desta pergunta era mostrar a possível e válida contrariedade das opiniões.

O Dino respondeu com um “Ahhh….” demonstrando a dificuldade de uma resposta simples. Afirmou que há muitas. Que há demais até, mas que a necessidade de desenhar existe, porque existem demasiados tipos de letra mal desenhados! Brincando, é como pessoas… Rapidamente descartou a pequena provocação que lhe fiz, respondendo que é mesmo como pessoas. E acrescentou com uma nova camada de complexidade—sob o ponto de vista empresarial—ele tenta entender o que o mundo precisa em relação a Type Design, mas também precisa de desenhar novos de tipos de letra até porque as precisa de vender.

A Joana concordou com esta posição. Até por que enquanto profissional, ela reconhece que existem sempre problemas novos e diferentes que precisam de ser resolvidos [pelos type designers]. A forma de usar e a forma de ver [e de ler] a tipografia altera-se constantemente Um caso explícito destes são as “nações emergentes” precisam de soluções tipográficas de qualidade—e isto é uma necessidade real de tipos novos. Em relação a isto, Dino acrescentou que muitos dos problemas levantados já foram resolvidos por pessoas que já foram mencionadas neste painel, como o contraste invertido, em meados do século XX pelo Roger Exocofon.

O que Dino estava a dizer é que estes problemas e contextos podem e devem ser reenquadrados, ou reavaliados à luz dos dias de hoje. E tentar adicionar algo ao trabalho desenvolvido pelos designers anteriores—um pouco à semelhança do mantra de Bernard of Chartres, “Like dwarfs standing on the shoulders of giants, we see farther than they,”. Este assunto provou ser um pouco mais controverso do que pensava. E o Rui quis acrescentar, dizendo que não se preocupa com o facto do problema estar resolvido, ou não. Ele afirma que quer desenhar ele, (re)resolver os problemas de forma a aprender e a desenhar da forma que pretende.

Aqui, Yves Peters acrescentou, querendo saber de que forma é que o Type Design funciona para cada um deles, como uma forma de resolver, ou satisfazer um impulso criativo pessoal em detrimento de resolver os problemas do mundo, como a legibilidade. Em resposta a isto, o Rui afirmou que, assim que desenhar um tipo de letra de cada estilo, assim que responder a cada uma das necessidades existentes, reforma-se… No sentido em que, se já não tiver mais problemas para resolver, dedica-se a outra atividade, onde possa resolver problemas interessantes.

Imagem do sistema tipográfico "Breve" do Dino/ DSType (site: www.fontmatters.com)
Imagem do sistema tipográfico “Breve” do Dino/ DSType (site: http://www.fontmatters.com)

O Dino acrescentou que, de cada vez que desenha um “sistema de tipos” (enquanto uma forma de resolver problemas), estes são formas de resolver problemas editoriais. Outras fontes que desenham na DSType, quando as desenham, têm a certeza que, durante os próximos 2 ou 3 anos, não vai vender nada. Mas alguns tipos de letra como estes estão à espera de ser desenhados—gritam por ser desenhados!

A Joana também quis responder ao Yves. Acrescentou que se considera uma artista, na medida em que os tipos de letra são criações bonitas—o que é importante é a “craft”, que é uma forma de arte. Ela pensa sempre que o Type Design se relaciona na mesma forma que a arquitetura, uma vez que têm [ou devem ter] sempre em conta o contexto envolvente. O Rui acrescenta que, passado tempo suficiente ao desenhar um tipo de letra, estas começam a “falar com ele”, revelando os seus problemas formais, a sua própria lógica, que é inerente à sua personalidade, ou especificidades do desenho. Desafiado a revelar um pouco mais sobre o processo de desenho específico, do desenho do tipo de letra Signo de contraste invertido, o Rui revela que o processo foi definido e resolvido pelo Exoconfon, mas que este processo de descoberta das próprias regas, e da forma como resolver estes problemas de um tipo de letra como as de contraste invertido representam.

Resumindo, há várias formas de responder e entender o problema de criação e uso de novos tipos de letra—do ponto vista do revivalismo, do ponto de vista do empreendedorismo [comercial] e do ponto de vista da autoria e da criação artística. Isto são aspetos que demoram tempo a aprender e a dominar pelos estudantes e pelos profissionais de type design.

“As a designer with [a proper] formal training, as prolific type user, an external observer, what are the main aspects that you feel are relevant in a designer’s education [on this path of becoming a type designer]?” (Resumidamente, como uma observadora externa especialista, quais são os aspetos que consideras mais relevantes na formação de um Designer? Ou porque é que se deve aprender Type Design?) Aqui a ênfase foi dada na formação enquanto designers gráficos e editoriais e não propriamente na formação ou especialização em Type Design—tal como a formação da própria Tiffany. Alguns dos currículos de escolas / faculdades / departamentos de universidades já integram o ensino de Type Design nos seus currículos. Isto é uma coisa positiva, ou é menos aproveitada pelos estudantes?

Independentemente se temos uma educação formal numa escola ou universidade, ou se somos autodidatas, é importante dialogarmos com outros. A Tiffany resumiu muito bem a questão, e de forma bastante eficiente, afirmando que não se pode desenhar (um projeto editorial) no vácuo. É necessário conhecer as vicissitudes de o máximo tipos de letras. Ou então conhecer o que os outros já utilizaram. Isto pode significar que se descobrem novos tipos de letra para um projeto. Ou então, já tendo usado alguns tipos de letra noutros projetos, sabemos que, em novos contexto, novos problemas esses tipos de letra também podem resolver os problemas novos.

Sobre o desenho e evolução pessoal na aprendizagem e sobre o caminho a percorrer para nos tornarmos bons type designers, temos que ser pacientes. Os bons desenhos não acontecem da noite para o dia. Refrearmos um pouco a nossa ânsia, e, talvez, resistir à tentação de libertar o primeiro desenho de tipo de letra… praticar mais, fazer melhor. Não ter medo de fazer erros. Acima de tudo, ter muita paciência—há tantos maus “esses” [letra “s”] no desenho de tipos de letra:

“Pace yourself (…) speak to other people (…) make connections”.

Sobre os recursos de educação disponíveis, a Tiffany, sendo uma das moderadoras do Typohile, afirmou que há uns tempos, o apoio e o feedback obtido em comunidades online como o Typophile ou outros sites eram o sítio para obter feedback de outros Designers Tipográficos (como ela), ou outros Type Designers profissionais. E estas comunidades, estes sítios online ainda existem, tal como Type Drawers. Mas o Twitter e o Facebook também funcionam—a mensagem principal é o diálogo é crucial—obter o feedback dos professores, colegas ou pares. O próprio Rui, na perspetiva da evolução de um Type Designer auto didata confirmou que estes recursos, como o Typophile, pelo menos durante o primeiro ano que se dedicou a esta atividade, foi um recurso essencial. O feedback de profissionais que obteve no Typophile foi muito valioso. Mas, eventualmente passou a obter o feedback mais especializado e direto de pessoas como o Peter Bruhn da Fountain, sem estes teria sido impossível chegar onde chegou.

O Luís Moreira perguntou da audiência (à Joana, ou ao Dino) se alguma vez tinham usado o Typophile para obter feedback, mas nenhum deles afirmou ter usado.

A Joana continuou a discussão, afirmando que, a formação dela, tendo sido uma segunda formação, foi um “trampolim” muito importante para passar para a especialização do mestrado em Reading. Lá, em oposição ao Typophile, obteve um apoio [presencial] fundamental para aprender como deve ser a fazer Type Design. Isto é, não foi num nano, nem pode ser num único ano. Mas foi um período de incubação, onde o contacto com os professores (e profissionais) lhe permitiu crescer e evoluir, fornecendo as bases para perseguir a atividade profissional. O Dino também acrescentou que, no tempo em que começou a aprender, era muito mais fácil! Na era “grunge”, quanto pior era o desenho, melhores eram os tipos de letra. Naquela altura, tinha que se destruir as fontes—e foi por aqui que começou. E aprendeu imenso. Aprendeu fazendo as coisas erradas no tempo certo! Só mais tarde, referindo-se à conferência de abertura do Miguel e à tecnologia MultipleMaster, é que aprendeu a desenhar tipos de letra enquanto sistemas.

Yves Peters quis acrescentar, perguntando e sabendo um pouco mais sobre o aspeto recente colaborativo de desenho de tipos e letra. Tendo já a experiência da Fontyou, a Joana iniciou por responder que o feedback obtido trabalhando com este coletivo é um processo muito interessante e enriquecedor. Para a Joana, colaborar num desenho, é uma experiência natural, uma vez que colabora (p. ex.) com o Eben Sorkin já há bastante tempo. É muito bom perpetuar estes tipos de colaboração, poque assim, podemos desenhar e do outro lado, alguém, nos diz que não está bem, ou que pode ser diferente. É um processo muito positivo.

Nesta ótica de partilha e colaboração, orientada numa primeira instância à Joana, quis que partilhassem um pouco mais sobre o processo de trabalho que usam.

“What is your (new typeface) design process?”(Qual é o teu processo de desenvolvimento de novos tipos de letra?) Isto é, começas por desenhar à mão, ou diretamente no computador. Desenhas palavras, letras, ou…? E que software(s) usas mais?

A Joana respondeu dizendo que usa o esquisso como ferramenta de reflexão, mas raramente estes esquissos passam para o computador de forma direta. Começa pelo desenho dos “a”—toda a gente gosta de “a”s—, mas contrariamente ao que muita gente (como os alunos) pensam, os desenhos são executados diretamente no computador.

A conversa já tinha “pendido” nesta direção, mas tinha-se perdido o fio condutor. De qualquer forma decidi retomar o tópico, dirigindo a pergunta novamente mais para a Tiffany, quebrando um pouco o fluxo da discussão sem querer. Mas o que é que acham da aprendizagem mais global, de outras disciplinas como a literatura, a ciência, a tecnologia,…

Novamente, a Tiffany surpreendeu-me com a simplicidade e a objetividade da sua resposta, afirmando que não nos devemos fechar no nosso mundo. Não devemos passar demasiado tempo apenas a observar a evolução ou os diferentes tipos de letra. Devemos ser cidadãos ativos e participativos na nossa sociedade.

Tentando não perder o fio condutor, reforcei se estas / outras áreas de conhecimento alimentam, ou distraem-nos do desenho especializado de tipos de letras? Se ela considerava que que existem modas [atualmente]—Do you feel there’s a trend going on? A trend in graphics aplied to type design?

Ela confirma que sim. Que há um pouco de uma moda em criar / agrupar e utilizar os tipos de letra em projetos fazendo parte de “suites” consistindo no uso da não-serifadas, das serifadas, das script, etc. E isto ajuda os designers gráficos a fazerem melhores layouts, na medida em que, como estes desenhos partilham o mesmo DNA, é mais fácil conjugar. Mas senti que, no discurso da Tiffany, existia uma pequena tristeza na perda de variedade da conjugação de diferentes tipos e estilos de forma mais criativa e livre.

Finalmente, mais orientada ao Rui Abreu, mas com a devida “fricção” esperada do Dino e da Joana, terminei o painel com uma pergunta que gerou muito do envolvimento da audiência: “There are so many free fonts out there—why should we commission, or buy typefaces? [as future Type Designers] Is there still a place for “us newcomers? Is there still a place to buy new fonts?” (Há uma oferta gratuita e livre enorme, atualmente. Porque é que devemos encomendar ou comprar novas fonts? Enquanto futuros Type Designers, ainda existe espaço para nós, profissionalmente?). Isto, especificamente, no âmbito do papel que a Web está a desempenhar a democratizar o acesso a mais e melhores (?) tipos de letra. O preço está a reduzir e muitas já se encontram de forma gratuita e livre. Afinal como é que isto afeta o papel dos Type Designers?

O Rui inicia a resposta afirmando que, tal como tínhamos discutido no aquecimento do painel, ele compraria uma fonte de que gostava. E se ele desenha tipos que gosta, prefere acreditar que, como ele, há pessoas que compram os tipos que gostam.

Em relação à distribuição livre de tipos em Open Source, se isto irá prejudicar o mercado, o Rui afirma que estes projetos são muito importantes. Tal como a Source Han mencionada pelo Miguel Sousa, ela afirma que este tipo de projetos só podem existir em Open Source.

A Tiffany acrescenta à discussão com o input pessoal de que, há uns anos um membro de uma equipa de um projeto da Linotype com quem esteve envolvida afirmou que as pessoas que “roubam” as fontes, ou que usam as fontes de forma não comercial não são exatamente as mesmas pessoas que compram as fontes. E., por isso, o mercado não é mesmo.

Dino dos Santos, responde com uma contra-provocação pedindo para explicar melhor o que é isto de tipos de letra “open-source”, comparando com o tunning dos carros. É muito caro (para alguém) e não é necessariamente melhor.

O Ricardo Lafuente adicionou à discussão, com a experiência pessoal, dizendo que, libertando a fonte como Open Source, o lucro que obtém é, por vezes ver erros dele corrigidos, ou as fontes melhoradas ou expandidas.

O Yves Peters acrescentou num fator que me preocupa desde que defendi a dissertação de mestrado em 2007—esta oferta de fontes livres, ou gratuitas diminui o valor percebido pelos utilizadores finais. Na mesma medida em que a grande oferta de Apps gratuitas está a mudar os padrões e comportamentos dos utilizadores. No futuro, quem é que vai estar disposto a pagar por novos tipos de letra? Isto está a acontecer na música e no software. Quem sabe, no futuro, os tipos de letra passarão a um modelo de subscrição? Afinal de contas, em 2008 ninguém achava possível desenhar sites com os tipos de letra que quisesse. E a tecnologia deu uma volta muito grande ao mercado. Talvez “amanhã”, os tipos de letra livres irão ser um novo mercado—e foi com isto que o Dino concordou. Se isto for uma nova forma de fazer, de sobreviver e prosperar nesta atividade, então é para onde devemos ir. Mas quis partilhar também que não acredita que isto seja o modelo mais certo. Até porque não é a única forma de mercado. Pessoalmente, ele avalia as situações que lhe chegam às mãos (como designers em contextos sociais complicado) e decide se vai ajudar reduzindo os preços, ou mesmo fornecendo os tipos a troco apenas de uma boa causa. Esta é a forma humana e responsável que o Dino encontrou de fazer a distribuição livre. E talvez seja a melhor forma.

Neste ponto, a conversa desviou-se um pouco para o software e as escolhas atuais [do iOS e dos iWatch], mas o importante aqui é referir que na discussão, o Gerry Leonidas confirmou que Apple tem na sua equipa type designers há cerca de 20 anos. E as decisões de implementar a Helvetica nos telefones apesar de controversa é uma decisão complexa que envolve vários fatores da aceitação do público e do mercado. Sempre pensei que a Apple fazia outsource das soluções tipográficas. Apesar de ter sido um desvio grande, achei importante registar isto—o próximo passo é saber e conhecer bem o trabalho destes designers (anónimos?) e o esforço que esta pequena equipa faz, ou fez até hoje.

Entretanto o Ricardo Lafuente interveio, explicando o modelo [de negócios] dele. Ele concentra-se na colaboração com o cliente e na mais valia de consultadoria de design de type design que fornece aos clientes. Por outro lado, preocupa-se com que os produtos que desenvolve sejam abertos, para serem valorizados e explorados por outros. A Joana Correia partilhou uma experiência que lhe foi próxima, com um colega espanhol, em que ele partilhou a fonte que estava a desenvolver como uma experiência de aprendizagem, sob um modelo de dontationware—com o qual o Dino brincou que também era o modelo dele.

Nesta altura, decidi perguntar se algum deles já tinha usado algum tipo de letra gratuito, ou livre, ao qual a Joana confirmou. O Yves manifestou a preocupação dele que, realmente, tal como na música, o mercado mudou. No software, vejo esta mudança a acontecer. E o Dino respondeu a isto que, o modelo atual de injeção de publicidade não funciona para os tipos de letra.

Uma das participações de um membro da audiência (que não registei o nome) partilhou a sua experiência que, o contacto e a exposição aos tipos de letra que conheceu e que utilizou sob a forma de pirataria, mais tarde, mediante a exposição a fontes legais e gratuitas, se transformou em compras efetivas e legais dos tipos de letra na sua atividade profissional atual. Sem este contacto, sem este conhecimento, ele não teria evoluído na sua posição de lurker para cliente.

Este foi um percurso semelhante efetuado pela Tiffany—transformou-se de uma estudante que conhecia os tipos de letra (de uma forma ou de outra) para uma utilizadora (compradora) de licenças de tipos de letra—e aqui o ponto de vista regressa um pouco atrás—os utilizadores que roubam, ou pirateiam não estão necessariamente a roubar ou a deixar de comprar os tipos de letra—eles não seriam clientes de qualquer forma.

O Gerry põe mais uma acha na fogueira, perguntando porque é que tratamos o negócio dos tipos de letra como um negocio diferente—esta mudança está a acontecer em todos os tipos de mercado, inclusive no dos mercados de produtos físicos. Ou então no do conhecimento científico e académico, numa frase que muito gostei e na melhor definição de Open Source:

“[E]ssentially, my university open-sources me (…) you’re not paying to listen to everyone there (…) and every time you have an idea that can be traced back to the things you’ve heard today and tomorrow, you don’t have to pay anything—that’s Open Source to me (…) that’s how things advance”

No final, em brincadeira, acabou por “matar” a conversa, pedindo a todos para não se iludirem e serem egoístas e esperar que toda a gente pode fazer dinheiro a partir do desenvolvimento de tipos de letra—o mercado não é assim tão grande!

A discussão com audiência ainda durou mais um bom bocado, e com a participação de participantes como o Natanael Gama, mas por força das circunstâncias (já tinha passado cerca de 1h30, pelo que nos alongávamos bastante no programa), tivemos que encerrar a discussão.

Catarina Silva (organizadora) a encerrar o primeiro dia do 5ET
Catarina Silva (organizadora) a encerrar o primeiro dia do 5ET

No final do painel no final deste dia fiquei muito contente por ter feito parte ativa desta discussão. As diferentes perspetivas sobre o que é ser um type designer (mais clássico, ou mais atual), como é aprender a ser um e a fazer design tipográfico (utilizando o que os designers nos dão, procurando feedback e colaborações), os aspetos que mais se valorizam (comerciais, artísticos, …), ou ainda o estado atual da indústria (a distribuição, o mercado, o impacto da globalização das novas tendências sociais propiciadas pela Internet) acabaram por se revelar ricas, variadas e complexas. Espero que este painel tenha contribuído para um crescimento de todos os participantes, da mesma forma que me fez crescer e pensar.

Inauguração da Exposição
Inauguração da exposição dos especimens de caligrafia portuguesa

Não quero encerrar esta entrada sem mencionar a exposição absolutamente impressionante de espécimenes de caligrafia portuguesa da coleção do Dino que estiveram em exposição na câmara de Barcelos. Um autêntico espólio de pura inveja e cobiça!…

Esta entrada faz parte de uma mini-série de entradas que resumem a minha experiência no 5º Encontro de Tipografia, a conferência internacional organizada pela Catarina Silva que teve lugar em Novembro de 2014, no IPCA em Barcelos. Não deixem de ler [este] resumo, o workshop, o dia 1 e o dia 2 da conferência. Vemo-nos nas próximas entradas ;)

5ET: Dia 1

Resumo do workshop de Desenho Colaborativo no 5ET

Julien Priez a inciar a sua apresentação no Workshop de desenho colaborativo
Julien Priez a inciar a sua apresentação no Workshop de desenho colaborativo

A história do workshop de Desenho Colaborativo começou muitos meses antes da conferência. O que se descreve nesta entrada foi o processo de desenvolvimento do workshop, como decorreu e foi conduzido. Uma breve nota para os mais impacientes: os slides dos resultados aparecem no final ;)

Como tudo aconteceu

No final de 2013 (ou terá sido no início de 2014?), a Catarina Silva (organizadora da conferência) perguntou-se se estaria disponível e interessado em realizar uma atividade no âmbito da conferência. Como já me conhecia, imagino que, na altura, estivesse à procura de algo sobre software (livre como o Fontforge), ou sobre participação e interação online (no âmbito do meu doutoramento). Claro que disse que sim, que faria qualquer coisa nesse âmbito.

O tempo passou, e entretanto tive que fechar e defender o doutoramento (finalmente!). A organização assegurou outros dois workshops, sendo que um deles ia ser com o Dave Crosland, com a Joana Correia—dois designers que muito admiro e dos quais já participei em workshops—, e com o Natanael Gama—um jovem Type Designer português que sigo desde o kickstart da Exo. Isto eliminou a ideia de repetir um workshop com o Fontforge. Quer dizer, não ia “competir” com designers mais experientes do que eu, “diluindo” as ofertas da conferência!

Website (atual) da Fontyou.com
Website (atual) da Fontyou.com

A dada altura, o Jorge Pereira (da organização da conferência) colocou-me em contacto com a Fontyou. E, de repente, tudo fez sentido. Lembro-me de ter conhecido o Nicolas Boudriot e o Gregori Vincens num jantar da conferência da ATypI de 2013 em Amesterdão. Lá expliquei-lhes o meu trabalho e eles retribuíram explicando como a Fontyou estava organizada—uma startup-foundry com uma forte vertente de colaboração presencial e à distância. Houve ume empatia imediata, mas com o passar do tempo, perdemos o contacto… Esta foi uma nova oportunidade de explorar as afinidades que havia entre nós. Sendo uma empresa principalmente te assente na Web…

Design Studio Method, de Todd Zaki Warfel @ Vimeo
Design Studio Method, de Todd Zaki Warfel @ Vimeo

Entra a Metodologia Ágil

Percebi que devíamos tentar uma abordagem que cruzasse as nossas áreas de trabalho e investigação. Foi assim que, tal como tenho vindo a adotar no âmbito das atividades letivas em Aveiro, surgiu a ideia de adaptar a metodologia ágil (Agile Methodology), vulgarmente utilizada no âmbito do desenvolvimento de software e soluções para a Web. E aplicá-la à sincronização do trabalho em grupo do workshop—obter o desenho completo de um tipo de letra. Isto porque, nos workshops que tenho conduzido e participado, a etapa de ideação é sempre uma tarefa custosa e [demasiado] demorada. Quis mudar isto desta vez.

Normalmente o desenho de um tipo de letra é uma atividade que depende maioritariamente de um designer ou diretor de arte. O objetivo aqui foi introduzir os participantes a técnicas de colaboração para: (a) gerar e sincronizar ideias; (b) colaborar na produção simultânea. E Assim, acelerar o processo de produção de um objeto através da harmonização da equipa. Uma hora de trabalho, de repente, pode significar produzir 3 a 4 vezes mais trabalho. Normalmente as abordagens ágeis, utilizam sprints de cerca de 1 semana (como a abordagem Lean utilizada pela Google Ventures), ou mesmo entre duas semanas a um mês (como a metodologia SCRUM). Nós… bom, nós tínhamos 7 horas! ;)

Utilizámos o Design Studio Method, uma adaptação da metodologia ágil proposta por Todd Zaki Warfell (imagem acima), juntamente com um par de ideias adaptadas da de alguns livros de Agile, como o Agile Experience Design: A Digital Designer’s Guide to Agile, Lean, and Continuous (Ratcliffe, & McNeill, 2012), The Art of Agile Development (Shore, & Warden, 2008), ou o The Art of Lean Software Development (Hibbs, Jewett, & Sullivan, 2009).

Já tive oportunidade de descrever os objetivos e metodologia numa entrada anterior, por isso não me vou alargar. Digamos apenas que o meu comparsa no crime, o Julien Priez da Fontyou—o principal cético desta abordagem extrema—, de manhã disse-me: “vamos com calma, se não fizermos uma fonte não há problema…”. Mas ao almoço já dizia entusiasmado:

Vamos fazer 5 fontes!

E assim foi. Bom, na realidade não ficaram prontas 5 fontes, mas já explico melhor.

Vista do Hotel S. Félix, do cimo de Laúndos
Vista do Hotel S. Félix, do cimo de Laúndos.

A estadia

Ficámos instalados num Hotel espetacular—o Hotel de S. Félix—, no cimo de um monte em Laúndos. Via-se a Sacor (Matosinhos), a Póvoa, o mar e a praia e as montanhas para o interior e para o Norte. Quase até Barcelos. Dizia o meu companheiro no crime: ”isto parece um hotel de um filme do [James] Bond”. Pudemos gozar da companhia do Dave, do Natanael, do Miguel, do Gerry e da Tiffany que também acabaram por lá ficar. Recomendo vivamente a paragem por lá, se viajarem pelo Norte. A viagem para o IPCA [de carro] era rápida e, embora significasse um esforço adicional, valeu a pena.

(Julien na) Entrada do CI&D, no IPCA (Barcelos)
(Julien na) Entrada do CI&D, no IPCA (Barcelos)

As instalações do Workshop e da Conferência

Ainda não conhecia o Centro de Investigação e Desenvolvimento do IPCA (CI&D). Só posso dizer que fiquei impressionado, não só com o pavilhão (uma mini FEUP), mas essencialmente com o Laboratório de Jogos Digitais (que nos foi apresentado pelo Pedro Mota Teixeira e pela Paula Tavares no primeiro dia da conferência). No entanto, foi principalmente com o Auditório que fiquei completamente rendido a este campus—confortável, com bom som, boa iluminação, e Wi-Fi decente. Mas tenho que admitir que o que mais me agradou foi ter tomadas disponíveis para toda a gente durante a conferência!

Mini FEUP ;)
Mini FEUP ;)

Mas estou a divagar… voltando ao workshop, a sala onde trabalhámos também estava bem equipada. E a equipa da organização (professores e alunos) foram impecáveis em garantir toda a logística. A tempo e horas

Sala do workshop com projetor, computador pessoais, impressora laser, papeis canetas,…
Sala do workshop com projetor, computador pessoais, impressora laser, papeis canetas,…

O workshop arrancou com uma breve apresentação dos objetivos, da metodologia e da Fontyou. [Auto] organizados em equipas, o Julien distribuiu uma versão editável de uma fonte dele— a Rotown FY—, eu distribuí os materiais (marcadores Paper Mate pretos, vermelhos, verdes, azuis, e papel), e arrancámos com os sprints.

Imagem promocional da fonte Rotown FY no MyFonts
Imagem promocional da fonte Rotown FY no MyFonts

Originalmente tinha planeado fornecer um par de cenários para que os participantes escolhessem (uma vez que não tínhamos um “cliente” real que nos fornecesse esse cenário—a falha da aplicação desta abordagem). Mas, de véspera, com o Julien decidimos “abrir” as opções para que eles escolhessem o que queriam fazer—teriam que fazer alterações a fonte de estilo (serifas, p. ex.); contraste, peso, largura, o que quisessem. Desde que mantivessem as caraterísticas da Rotown, mas criando uma nova variante. E arrancamos com os sprints… ah, já mencionei que cada sprint durava apenas 5 minutos? ;)

Diagrama dos sprints para o Workshop
Diagrama dos sprints para o Workshop

Leiam aqui uma breve descrição do plano de trabalho: https://pedamado.wordpress.com/2014/11/24/collaborative-type-workshop-com-julien-priez-fontyou/

Alguns dos participantes a desenhar ideias
Alguns dos participantes a desenhar ideias

Os primeiros dois sprints (S1 e S2) decorreram como previsto. Enquanto sprintmaster, não posso dizer que fui muito rigoroso, nem muito exigente no início. O ambiente estava agradável e pareceu-me que os participantes estavam a gostar do feedback e das interação, principalmente com o Julien.

Julien a comentar os desenhos iniciais
Julien a comentar os desenhos iniciais

Na primeira fase—ideação—, os desenhos foram muitos, e as avaliações interpares também. Decorridos três rondas, passámos à síntese e apresentação de resultados de cada grupo. Foi aqui, na primeira síntese de grupo, que decorreu a parte mais interessante —para além dos vários estilos presentes, o Julien brindou-nos dicas muito interessantes sobre o espaço negativo e proporção das letras, fruto da sua experiência académica e profissional na Fontyou.

Síntese de resultados e comentários ao primeiro sprint (S1)
Síntese de resultados e comentários ao primeiro sprint (S1)

Passado apenas pouco mais de uma hora e de um coffe break com mooontes de açúcar (!), passámos à fase de afinação das caraterísticas das letras a desenhar. Nesta fase já os grupos tinham sincronizado as ideias e estavam a trabalhar nos pormenores e nas características que iriam definir o novo tipo. Isto mostrou que esta abordagem facilita realmente esta primeira fase de criar novas ideias. Afinadas as características de cada grupo, fez-se uma nova síntese e avaliação. E saímos para o almoço, para pensar e organizar o trabalho da parte da tarde.

Uma versão "fat" da Rotown desenvolvida por um dos grupos
Uma versão “fat” de alto contraste da Rotown, em desenvolvimento por um dos grupos

Foi aqui que decidimos não escolher e desenvolver apenas uma fonte, mas sim, avançar com uma fonte por cada equipa. Na altura fiquei um bocado reticente em mudar o plano, mas a verdade é que funcionou. Voltados à sala, e depois de um crash course em Glyphs (explicámos apenas os filtros de carateres e os principais atalhos para o desenho vetorial), convidamos todos os participantes a fazerem a palavra “adhesion”, ou outra palavra de teste desde que tivesse um “n” ou “h” para definir a proporção central e largura dos carateres, as hastes, e a altura-x (e, no caso do “h”, as ascendentes). Um “o”, ou “e” para as barrigas e olhos.

Após uma avaliação intercalar do S3, havia quem não conseguisse parar de trabalhar!
Após uma avaliação intercalar do S3, havia quem não conseguisse parar de trabalhar!

Deixamos que as dúvidas surgissem ao ritmo normal de cada participante. O Glyphs é muito, muito intuitivo e as ferramentas de desenho são muito poderosas (no final quase todos lidavam de forma natural com o desenho, já sem grandes dúvidas). A meio da tarde parámos para fazer uma avaliação intercalar do trabalho, fizeram-se novos comentários gerais à evolução de cada um.

Character Set das "Rotowns" modificadas no Glyphs
Character Set das “Rotowns” modificadas no Glyphs

Posso dizer que fiquei muito contente com os resultados—o objetivo de completar uma fonte era um driving goal. Na prática quase terminámos um character set completo (maiúsculas, minúsculas e alguns numerais). E, pelo caminho houve um crash valente de um Glyphs do qual não foi possível recuperar a maior parte dos carateres… E isto, foi em apenas 7 horas. Por isso, imaginem o que uma pequena equipa, bem sincronizada, não conseguirá fazer numa semana de trabalho?

Merci beaucoup! À bientôt...
Merci beaucoup! À bientôt…

Foi um bom workshop. Foram participantes excelentes. foi um bom test drive à metodologia de desenvolvimento ágil de tipos de letra (Design Studio Method). Isto é, o primeiro objetivo— agilizar a etapa de ideação—foi cumprida. E, em grande parte, o segundo objetivo—acelerar e aumentar o trabalho desenvolvido através da colaboração da equipa em torno do mesmo desenho—também foi cumprido. Para a próxima vez, insisto mais na sincronização de toda a equipa.

Slides da apresentação de resultados no Scribd (https://www.scribd.com/doc/253756895/Amado-Priez-2014-Collaborative-Type-Workshop-5ET)
Slides da apresentação de resultados no Scribd (https://www.scribd.com/doc/253756895/Amado-Priez-2014-Collaborative-Type-Workshop-5ET)

À distância, na altura em que escrevo isto, vejo que faltou fazer duas coisas. A primeira foi uma fotografia de grupo. Foi estupidez, e, normalmente, sou um dos chatos que quer sempre fazer isto. Esqueci-me. A segunda foi fazer uma ronda final de autor reflexão e avaliação do processo e dos resultados, tal como proposto pela metodologia SCRUM.

Enfim, nunca é demais agradecer e elogiar todos os membros de organização que ajudaram a tornar este workshop possível e pela organização impecável em todos os aspetos—a todos os professores e alunos em apoio.

P.S.1: Esta entrada não termina sem elogiar novamente o gift bag. Primeiro, porque aqui o cegueta não reparou à primeira no pormenor de adaptação da marca do 5ET à versão monocromática—com uma trama completamente old school—muito bom! Confesso que só reparei nisto quando cheguei [exausto] a casa. E os brindes incluídos são de invejar (assim de repente, estimo um valor aproximado de 30€. Isto sem contar com o calendário extra que nos ofereceram!). Só o saco pagava a inscrição! ;)

P.S.2: repararam que durante o workshop [na imagem acima] tivemos direito a bolachinhas e sumo na Sala?! Foram fait divers como estes que fizeram do workshop (e da conferência) uma experiência espetacular!

Esta entrada faz parte de uma mini-série de entradas que resumem a minha experiência no 5º Encontro de Tipografia, a conferência internacional organizada pela Catarina Silva que teve lugar em Novembro de 2014, no IPCA em Barcelos. Não deixem de ler sobre o resumo, [este] workshop, o dia 1 e o dia 2 da conferência. Vemo-nos nas próximas entradas ;)

Resumo do workshop de Desenho Colaborativo no 5ET

Resumo do 5ET

Apresentação e plateia durante o keynote do Miguel Sousa na abertuda da conferência
Apresentação e plateia durante o keynote do Miguel Sousa na abertura da conferência

Nas próximas entradas, vou fazer um apanhado—em tom de resumo—sobre as atividades que acompanhei no 5º Encontro de Tipografia, a conferência internacional, que teve lugar do dia 26 a 29 de Novembro de 2014.

Julien Priez a inciar a sua apresentação no Workshop de desenho colaborativo
Julien Priez a inciar a sua apresentação no Workshop de desenho colaborativo

Começam, obviamente, pelo resumo e resultados do Workshop de desenho colaborativo com o Julien Priez da Fontyou. Foi um dia super-intenso, mas super-produtivo. Entretanto tenho ligo mais algumas coisas sobre metodologia Agile (nomeadamente SCRUM) e apercebi-me que faltou uma componente importante de auto-reflexão durante o processo. Mas tudo a seu tempo.

Miguel Sousa durante o keynote de abertura
Miguel Sousa durante o keynote de abertura

Segue-se uma entrada dedicada ao primeiro dia, onde resumo principalmente o keynote do Miguel Sousa e faço um apanhado geral do painel de discussão Ligatures. O painel foi divertido preparar, mas foi ainda mais divertido participar. Isto é, para além da discussão de aquecimento (10 min. antes), o painel foi extremamente participado pelo público presente, o que enriqueceu (e estendeu) imenso a discussão. Pudemos ouvir e discutir de “mano-para-mano” com o Gerry Leonidas, Yves Peters, Andreu Balius, Miguel Sousa, Luís Moreira, Ricardo Lafuente entre muitos outros participantes e conferencistas!

Gerry Leonidas durante o seu keynote
Gerry Leonidas durante o seu keynote

Por fim, a última entrada da série resume e o último dia. Começa por um breve resumo e da apresentação da ATypI por mim e pelo Vítor Quelhas. Segue-se um apanhado dos pontos altos do keynote do Gerry Leonidas—cujos slides estão disponíveis online no speakerdeck—e um breve resumo sobre o keynote do Dave Crossland. Sobre este último vou ser mais escasso, porque já tenho dedicado algumas entradas ao Dave e às suas conferencias e não me quero estar a repetir demasiado.

Gift bag da conferência
Gift bag da conferência

Esta entrada não termina, obviamente, sem antes mencionar (e elogiar!) o saco de brindes da conferência. Super recheado!

Só uma última nota em relação a estas entradas: estão organizadas de forma livre, e não seguem nenhuma ordem ou hierarquia específica. Apenas refletem o conjunto de notas que fui retirando durante e após a conferencia. Digo notas principalmente porque [na altura em que escrevo estas palavras] o encontro já vai longe e os meus registos foram escasso em pormenores dos participantes e comunicações—vou esperar pelas atas da conferência ;)

Esta entrada faz parte de uma mini-série de entradas que resumem a minha experiência no 5º Encontro de Tipografia, a conferência internacional organizada pela Catarina Silva que teve lugar em Novembro de 2014, no IPCA em Barcelos. Não deixem de ler [este] resumo, o workshop, o dia 1 e o dia 2 da conferência. Vemo-nos nas próximas entradas ;)

Resumo do 5ET

Collaborative Type Workshop com Julien Priez (Fontyou)

The Agile Manifesto (in Ratcliffe, & McNeill, 2012)
The Agile Manifesto (in Ratcliffe, & McNeill, 2012*. Retirado de: http://agilemanifesto.org/)

É já daqui a dois dias, na próxima quarta-feira dia 26, que vou estar no IPCA (no âmbito do 5º Encontro de Tipografia), com o Julien Priez da Fontyou a ministrar um Workshop sobre desenvolvimento ágil de Type Design:

Desenhar e implementar fontes completas é um trabalho intensivo. Por um lado, encontrar um estilo para os caracteres de base, que responda a uma necessidade específica é, em si, um desafio criativo. Por outro lado, a tarefa de implementar o conjunto completo de caracteres Open Type é uma tarefa mecânica exaustiva. [Para acelerar este processo e reduzir a taxa de esforço envolvida na sincronização de todos os membros das equipas podemos recorrer a metodologias de Desenvolvimento Ágil, cada vez mais comuns no Design de Software].

A abordagem de Desenvolvimento Ágil consiste num conjunto de técnicas, tendo em vista o desenvolvimento de soluções em equipa. Resulta da colaboração, crítica e desenho de respostas rápidas pelos designers. [Na prática, envolve todos os participantes e stakeholders no processo de criação tendo em vista um resultado mais informado, completo e responsável. É um processo muito intenso e rápido assente na resolução de problemas concretos em sprints de trabalho].

O Julien Priez (Fontyou) e o Pedro Amado (Universidade de Aveiro) vão aplicar o Método do Design Studio para demonstrar como a co-criação pode acelerar o processo de desenvolvimento de ideias e fomentar a implementação rápida de conjuntos de caracteres em equipa.

http://web.ipca.pt/5et/collaborative-type.html

Estou neste momento a terminar de preparar os pormenores do workshop com o Julien Priez. Embora não conheça pessoalmente o Julien, no passado, já tive oportunidade de conhecer um par de colegas dele da Fontyou: a Valentine e Alisa Nowak, bem como o Nicolas Boudriot na última ATypI de Amesterdão. Posso atestar que eles são uma das jovens empresas que devemos manter debaixo de olho, porque têm produzido muito trabalho de qualidade, fora dos “centros” tradicionais.

https://co-create.fontyou.com/
https://co-create.fontyou.com/

As ferramentas e métodos que implementam para a colaboração no desenvolvimento de Type Design (não só a nível do desenho como da produção e distribuição) também são muito inovadoras—estou mesmo muito contente por esta oportunidade trabalhar com eles neste workshop (só posso agradecer à organização por isso!). Sei que esta é uma oportunidade rara e preciosa de conhecer e explorar outros métodos de trabalho.

Em relação à dinâmica durante o Workshop. Iremos então tirar partido da experiência de colaboração e de desenho que o Julien traz da Fontyou. E implementa-la numa proposta de metodologia de desenvolvimento ágil que tenho vindo a assimilar no meu método de trabalho. As influências são muitas, mas a principal influência vem (de uma mistura?) das abordagens XP e Lean:

Agile development is popular. All the cool kids are doing it: Google, Yahoo, Symantec, Microsoft, and the list goes on (…) no single technology or management technique would offer a tenfold increase in productivity, reliability, or simplicity (…) don’t recommend adopting agile development solely to increase productivity. Its benefits (…) come from working differently, not from working faster (Shore & Warden, 2008, p. 3)

As abordagens ágeis, mais concretamente as abordagens Lean, têm sido utilizadas por muitas empresas (como por exemplo a Big Spaceship, ou a Google Ventures) para envolver os próprios empreendedores na procura, definição, avaliação e escolha das soluções a implementar. Não é uma receita para obter resultados bons, ou eficazes. No entanto, é, sem sombra de dúvida uma forma diferente e muito eficaz de trabalhar em equipa e obter resultados rápidos mais compreensivos.

Your team will need time to learn agile development. While they learn—and it will take a quarter or two… (Shore & Warden, 2008, p. 3).

No entanto, o método que vamos usar é intenso. Propositadamente intenso e rápido. De forma a “forçar” a entrega e avaliação de soluções. É uma forma interessante de quebrar barreiras e gerar criatividade, mesmo com as pessoas mais inibidas. Posso dizer que, nas 6 horas que temos alocadas para as atividades, iremos fazer “suar” todos os participantes inscritos.

Isto é, não vão correr nem fazer exercício físico. Mas vão ter que trabalhar muito rapidamente. Ainda assim, muito provavelmente não iremos finalizar os sprints planeados. Mas, acima de tudo, a ideia é mostrar uma forma diferente de abordar a resolução de problemas. Garanto que, com a intensidade e rapidez com que decorre cada sprint de trabalho os participantes irão chegar ao fim do dia cansados, literalmente. Satisfeitos, mas cansados ;)

Design Studio Method, de Todd Zaki Warfel @ Vimeo
Design Studio Method, de Todd Zaki Warfel @ Vimeo (https://vimeo.com/37861987)

A ideia é utilizar uma metodologia com as suas raízes no desenvolvimento ágil. Mais concretamente, na abordagem do Design Studio Method de Todd Zaki Warfel, para o desenvolvimento e sincronização das ideias iniciais e afinação do design. Para depois, em grupo, distribuir e sincronizar tarefas e completar um character set Open Type STD  completo no final das 6 horas. Desenvolver, ou melhor, adaptar uma fonte digital da própria Fontyou em apenas 6 horas… impossível? Não me parece. Este é, no entanto, mais um “driving goal”, do que um imperativo do workshop.

Agile Sprint Diagram for the Collaborative Type workshop
Agile Sprint Diagram for the Collaborative Type workshop

Resumidamente, planeámos para Workshop 3 Sprints (S1, S2, & S3), conforme a imagem acima. O primeiro (S1) é o sprint de criação de ideias. Os participantes vão desenhar à mão, com marcadores, as suas ideias de adaptação/modificação de um tipo de letra existente.

Glyphs App (http://www.glyphsapp.com/glyphs/)
Glyphs App (http://www.glyphsapp.com/glyphs/)

Depois, iremos fazer uma breve introdução ao Glyphs App para o desenho de tipos de letra. O Glyphs é uma das aplicações recentes que muito tem dado que falar. Já o tenho usado e posso atestar que é realmente poderoso, especialmente no que diz respeito às ferramentas de desenho vetorial. Muito bom!

De seguida, passamos ao segundo sprint (S2). Os participantes vão passar [dos desenhos] das ideias para o software, onde faremos uma nova fase de avaliação. Sincronizamos o trabalho, preparamos a plataforma de colaboração e teremos sensivelmente 2 horas para desenvolver um character set completo. Estou muito entusiasmado para ver toda a gente em ação!

No final, geramos uma versão da fonte no Glyphs e/ou um poster no InDesign para demonstração e mostra durante a conferência (espero!).

Soube há pouco que há mais 3 participantes inscritos (o que faz um total de, pelo menos, 12 participantes inscritos), pelo serão suficientes para fazer 3, ou 4 equipas. Não sei se vamos ter toner na impressora, nem marcadores suficientes para a quantidade de desenhos que vão ser gerados—com este método, desenha-se e avalia-se uma quantidade astronómica de ideias!… espero que não! ;)
Não sei se ainda há inscrições disponíveis. Da nossa parte, acho que ainda se consegue espremer mais um ou dois participantes… por isso apressem-se a inscrever. É só até amanhã!

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* Referências utilizadas para a sinopse e conceção do workshop (para além dos sites mencionados):

Ratcliffe, L. & McNeill, M. (2012). Agile Experience Design: A Digital Designer’s Guide to Agile, Lean, and Continuous. Berkeley: New Riders.

Shore, J. & Warden, S. (2008). The Art of Agile Development. Sebastopol, O’Reilly.

Hibbs, C.; Jewett,S.; & SullivanThe Art of Lean Software Development. Sebastopol, O’Reilly.

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P.S.: Não se esqueçam de dar uma vista de olhos dos posts anteriores sobre o primeiro e sobre o segundo dia do programa do 5º Encontro de Tipografia. Está cada vez melhor! ;)

Collaborative Type Workshop com Julien Priez (Fontyou)

Vem aí o 5º Encontro de Tipografia! (Parte 2)

ESG

O programa do segundo dia do 5º Encontro de Tipografia abre com uma breve apresentação da ATypI—Association Typographique Internationale. Eu e o Vítor lá estaremos a promover a associação e a tentar mais uma vez que se juntem a nós (para o ano a conferência é em São Paulo!… ). Iremos fazer um breve apanhado da missão da associação e das atividades que promovem.

Dissertação de Carolina Ferreira (@ Béhance da autora)
Dissertação de Carolina Ferreira (https://www.behance.net/gallery/19622023/%28In%29visible-Shapes-Masters-Dissertation)

Seguem-se três apresentações de peso, no painel de comunicações. “Breve estudo da influência da forma das serifas na legibilidade de textos longos” de Carolina Ferreira. Tive oportunidade de interagir um pouco com a Carolina no Typeshares—o grupo do Facebook— e de ver uma pequena imagem da dissertação no Béhance—https://www.behance.net/ferreiracarolina. Apesar de não ter podido participar no estudo, estou super-curioso por saber como o trabalho foi feito e quais os resultados obtidos. Até porque, foi orientada pelo Prof. Diniz Cayolla e pelo Prof. e Designer Dino dos Santos. Não espero menos do que um trabalho espetacular.  Aliás, Carolina: se estiveres a ler isto, aviso-te desde já que te vou cravar uma cópia da dissertação!

Manual do Tipógrafo, © Mário Moura (https://ressabiator.files.wordpress.com/2011/07/libc3a2nio4.jpg)
Manual do Tipógrafo, © Mário Moura (https://ressabiator.files.wordpress.com/2011/07/libc3a2nio4.jpg)

Depois segue-se “O Manual do Tipógrafo de Libânio da Silva: Um projecto ubíquo para a prática tipográfica” de Sofia Rodrigues. Outra apresentação que, apesar de não conhecer a autora, quero ver e ouvir com muita atenção. Aliás, qualquer designer português deve ter um interesse nisto. O Libânio é uma referência incontornável na nossa história Tipográfica
 portuguesa e o seu pequeno manual é uma autêntica pérola ;)

Depois segue-se uma apresentação de Yves Peters: “The Ubiquitous Typeface in Movie Posters”. Confesso que esta não é a rubrica que mais me interessa no blog da Fontshop. Mas ter cá um dos editores do site desta foundry é, sem dúvida, uma mais valia.

keynote2

O segundo keynote não precisa de introdução, nem explicação:

Gerry Leonidas é Professor Associado de Tipografia na Universidade de Reading, Inglaterra. Ocupa os seus dias a falar e a escrever sobre tipografia, typeface design e ensino de tipografia. É o Director do Programa MA Typeface Design e do Tdi summer course. www.leonidas.org

Gerry Leonidas irá apresentar a conferência A framework for typographic quality in typeface design

The growth of consciousness about typeface design has brought a rise in the numbers of aspiring typeface designers; that’s a good thing. But the ease with which fonts can now be published online has resulted in the loss of a filter for quality that was in the past embedded in the publishing process. This observation is most evident in the case of non-Latin scripts, where the lack of widely available resources and clear pathways to excellence present a major hurdle to aspiring designers. This talk reports on a current research collaboration between Reading and Google to develop a framework for ensuring a minimum level of typeface and typographic quality that is publicly available, while being agnostic with regard to the design specifics of each typeface.

http://web.ipca.pt/5et/gerrypt.html

Sendo um entusiasta da auto-publicação e da distribuição Open Source de tipos de letra, é escusado dizer quão importante me parece esta conferência atualmente!… Acho que todas as pessoas que usam tipos de letra na sua atividade profissional deviam assistir…

Já na parte da tarde, a conferência prossegue com mais um painel de comunicações e estou mesmo muito curioso e assistir a duas em particular Type in Progress: An investigation how interactive and responsive type can be designed and used as a creative tool” de Stefanie Schwarz. Esta primeira, porque reflete (?) a proposta que não cheguei a terminar para enviar para a conferência… Não conheço a autora, nem tão-pouco o seu trabalho. No entanto, nunca esteve tão em voga o conceito de “responsive typography” como agora. Não sei o que a autora vai frisar—se a questão mais editorial (as escalas, o conteúdo…?) ou como devemos usar as opções da tecnologia atual para criar verdadeiras soluções adaptáveis, tal como defendido por Jason Pamental e Jason Santa Maria. Pessoalmente, tal como tenho vindo a desenvolver com os alunos, a minha abordagem (a revelar talvez num futuro próximo?) centra-se no desenvolvimento progressivo (ou degradação graciosa) de gráficos e detalhes (aplicado normalmente às marcas e logótipos). Vamos ver. Estou muito entusiasmado, até por saber que não estou sozinho nesta abordagem. Novamente… vamos ver! ;)

Segue-se uma dupla que muito admiro e que tenho seguido nos últimos anos. “Foundry-in-a-box: A proposal for frictionless font publishing and distribution” é a comunicação a ser apresentada por Ana Isabel Carvalho & Ricardo Lafuente. Mais uma vez, este é daqueles trabalhos que sei que sei que vou ter que ver. Por um lado, o título tem tudo a ver com a minha posição em relação à produção e distribuição de tipos de letra. Por outro, estes são dois designers & autores que entendem muito bem as questões sociais, tecnológicas e de design envolvidas. A apresentação promete e vai, com certeza apresentar pontos de vista únicos e refrescantes.

keynote1

Por fim, fica à responsabilidade de Dave Crossland apresentar a última keynote  da conferência antes da sessão de fecho: “Control Points” por Dave Crossland:

Today typography is becoming more and more important for us each to express ourselves. Typography has become an extension of who we are. Our choice of words to express the ideas in our minds is as important as our typographic choices that express the emotions in our hearts. Billions of people are now online and each person need fonts that are tailor-made for themselves and their businesses. Libre fonts can fulfil this need, but we need good tools to turn our freedom from an abstract ideal into a reality. In this keynote address, Dave Crossland introduces a new approach to typeface design that is both ubiquitous and unique.

http://web.ipca.pt/5et/davept.html

Dave é um daqueles designers e autores dos quais não preciso apresentar mais, nem novamente. Já tive a oportunidade de o fazer aqui neste blog, no passado. Primeiro num workshop promovido pelo Lafuente: https://pedamado.wordpress.com/2010/06/21/dave-crossland-hacklaviva/. E depois numa conferência que organizei aqui em Aveiro: https://pedamado.wordpress.com/2012/01/04/dave-crossland-aveiro/ , cujos resultados e registo foram divulgados aqui: https://pedamado.wordpress.com/2012/02/09/conferencia-e-workshop-de-dave-crossland-ua/.

Sendo um dos raros designers [unicórnios] que cruza muito bem as áreas gráficas e tecnológicas, é sem sombra de dúvida, um designer a manter debaixo de olho nos próximos 10 anos:

Dave é um type designer inglês que em 2006 decidiu libertar as fontes! Desde então tem estudado e trabalhado para promover uma cultura de comunicação visual livre. Já desenhou centenas de fontes para designers em todo o mundo.

No decurso dos seus estudos no Departamento de Tipografia da Universidade de Reading (2009) desenhou a famosa “Cantarell”, uma fonte humanista contemporânea sem serifa, incluída no lançamento do Google Fonts e também a fonte pré-definida do User Interface do GNOME 3. Actualmente é um “Consultor de Fontes” da Google Web Fonts e um instrutor da equipa Crafting Type.

www.understandingfonts.com/who/dave-crossland/

A sessão irá encerrar depois do keynote de Dave, mas não é o fim. Ainda ficamos para um jantar de gala que irá ser a oportunidade de falar dos resultados, trocar mais umas palavras amigas e quem sabe começar a preparar a próxima edição. Juntem-se a nós na próxima sexta e sábado. Vai ser uma edição fantástica!

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P.S.: Não se esqueçam de ler a primeira parte deste post, ou de ver detalhes sobre o workshop de Collaborative Type Design.

Vem aí o 5º Encontro de Tipografia! (Parte 2)

Vem aí o 5º Encontro de Tipografia! (Parte 1)

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Falta menos de uma semana. Na realidade, faltam apenas 5 dias até os primeiros Workshops tomarem lugar. Depois de um par de sessões dedicadas ao Letterpress e à colaboração no desenvolvimento de Type Design (com o Glyphs App) na quarta-feira 26 (mais informações brevemente neste blog). Seguem-se mais dois dedicados ao Crafting Type [com Fontforge?] e à descoberta e criação de um mapa tipográfico pela cidade de Barcelos num magnífico Type Walk, na quinta-feira 27.

keynote4

A conferência, em si, começa na sexta-feira dia 28. O programa abre com o Miquel Sousa, que irá revelar um pouco dos bastidores do desenvolvimento de fontes na Adobe:

Deixem-me levar-vos numa viagem que tem início no despontar do desktop publishing, e termina na ascensão do movimento open source aplicado a fontes.

http://web.ipca.pt/5et/miguelpt.html

Senão por outro motivo, este é um orador pelo qual todos devem estar presentes a horas. Espero uma casa cheia nesta conferência, nem que seja para demonstrar o apoio ao nosso tão digno “representante”  luso em terras americanas ;)

Segue-se o primeiro painel de apresentação de comunicações. Não conhecendo nenhum dos trabalhos fico curioso, pelo menos para ver apresentados o “Tipofoto” de Rita Bastos e a relação estabelecida na “Tipografia, design e filosofia: Reflexões sobre o projeto Léon Regular, sua estrutura, formulação, aplicação e leitura” de João Batista Corrêa.

A tarde abre com mais um painel de comunicações, que, apenas pelos títulos, geram muita expectativa. Senão conseguirem assistir todos, recomendo vivamente que não percam (mesmo) as apresentações The Typesetting of Pessoa’s The Transformation Book” de Alessandro Segalini. E a “Typographic analysis of Brazilian indigenous languages” do Rafael Dietzsch. Confeso que só conheço o Segalini de reputação online. Espero que esta seja a oportunidade para nos conhecermos em pessoa. Já o Rafael, posso atestar que é um tipo impecável, com um conhecimento profundo sobre as questões tipográficas. O trabalho que vai apresentar é, sem sombra de dúvida, um exemplo que irei “beber” com atenção.

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Mais para o final do dia, fui convidado para moderar o painel Ligatures Perspectives on becoming a typeface designer”, com um grupo de pessoas que, para além de admirar, considero meus amigos—o Rui Abreu, a Joana Correia, o Dino dos Santos e a Tiffany Wardle [bom, embora só conheça a Tiffany online, sinto-me honrado por ter finalmente esta oportunidade de a conhecer pessoalmente]. Este painel está a ser preparado e irá ter material para discussão no palco e na plateia! Apareçam, ou enviem-me tópicos que pretendam ver discutidos ;)

Por isso vai ser um bom motivo para ficarmos todos até ao fim do dia!

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Senão pela discussão, aproveitem e fiquem para a inauguração da exposição “As artes de escrever diversas sortes de letras“—a Colecção de livros raros e antigos de Dino dos Santos. Já tive a oportunidade de passar no atelier antigo do Dino, e, tendo visto apenas alguns exemplares, testemunho a maravilha da coleção que apresenta. Não sei o que vai estar em exposição, mas, pelo teaser que colocaram online (em https://itunes.apple.com/pt/book/as-artes-de-escrever/id942573446?l=en&mt=11), vai ser muito boa!

E isto encerra o primeiro dia. Bom, quer dizer. Espero que não. Espero que haja uma oportunidade de bebermos um copo e jantarmos juntos… ;)

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P.S: Não percam os próximo posts sobre o segundo dia e sobre o workshop de Collaborative Type Design, que irei lecionar com o Julien Priez da Fontyou.

Vem aí o 5º Encontro de Tipografia! (Parte 1)

UX+HCI Open Seminars: Bieke Zaman

Bieke Zaman @ UA
Bieke Zaman @ UA

Hoje à tarde (quarta-feira, dia 30), no âmbito do Mestrado em Comunicação Multimédia, a investigadora Bieke Zaman, da Universidade K.U. Leuven da Bélgica apresentou uma conferência com o título: From Human Computer Interaction to Player-Computer Interaction: The evolution of HCI and games research. Para além de uma presença muito simpática, a conferência foi bastante interativa e o tempo passou a voar…

[update: não percam a conferência de David Geerts, hoje, quinta-feira dia 30 à tarde. Até porque não sei se vai ser possível haver um stream como ontem]

A conferência começou com uma breve incursão (interativa com o público) sobre as (noções e) definições de Human-Computer Interaction (HCI) e User Experience (UX). No final, acabou um pouco mais curta do que esperava (passando apenas brevemente nas estratégias de gamification).

Mas a conferência não deixou de impressionar. Para além de um rescaldo dos principais conceitos, Zaman brindou-nos com uma abordagem muito interessante à reflexão sobre as últimas décadas de Design de Interação e sobre as abordagens de Design Participativo.

Como a imagem deste artigo revela (num breve pormenor), Bieke apresentou um diagrama (desenvolvido por ela) sobre a  evolução do conceito, investigação e desenvolvimento sobre HCI ao longo dos últimos 30 anos.

Organizou esta noção através de uma framework que organiza as áreas de interesse/de investigação que se envolveram com o HCI em três vagas (do original waves). Áreas como as Ciências Cognitivas (denominada de Primeira Vaga) através das experiências controladas em laboratórios de interação. Seguindo-se (e acrescentando) as Ciências Sociais (a Segunda Vaga) através de métodos etnográficos e da fenomenologia. E por fim (disse Bieke, em tom de interrogação), destaca o envolvimento das Artes e Humanidades neste domínio (a Terceira Vaga), através dos estudos críticos e da interpretação.

[The i]ncreasing importance of aesthetics in technology.

Um dos primeiros aspetos que é interessante observar nesta framework, é a alteração da da importância e do envolvimento das ciências humanas e sociais, e das artes e design, no desenvolvimento e estudo de soluções de HCI. E no final da apresentação da framework deixou em tom de provocação:

What will be the 4th pillar, the 4th wave?

Outro aspeto que se destacou no discurso e apresentação de Zaman, foi a passagem da observação em laboratório para os métodos mais contextuais, de observação situada e da importância do envolvimento dos utilizadores finais no processo de desenho e desenvolvimento da soluções—abordagens de User-Centered Design e de Participatory Design. No entanto, a autora denotou uma definição muito particular desta abordagem. Se as minhas notas não me atraiçoam (por favor confirmem nos artigos dela), Bieke considera esta abordagem da seguinte forma:

Participatory Design, as involving users in Design. It’s more like a moral stance in order to empower the people for whom you are designing for…

Apesar de estar fora do contexto, e de ela realçar a crescente importância de envolver os utilizadores finais (e todos os stakeholders) no processo, Bieke denota que o processo de participação deve ser gerido com cuidado. Consiste mais numa abordagem moral e social do que propriamente uma forma de verdadeiro co-design. Isto é, os participantes não vão todos desenhar. Mas o seu input é valioso para a definição e construção do desenho: “Empower in order ot facilitate knowledge creation… It’s really complex”

Não é um processo fácil. Aliás, Bieke destacou isto várias vezes. Não é fácil!

In theory it’s wonderful. In practice it’s difficult. It is really difficult. But it’s not because it’s difficult that we should avoid it.

Ela admite que o processo participativo é difícil, ou virtualmente impossível quando se envolve todos os stakeholders—é impossível envolve-los e acolher a participação de todos de forma positiva.

Na segunda parte deu mais enfoque na layer atual de Gamification para abrir o tópico de “What’s Next?…”

A direção que Bieke imprimiu à conferência é que o tempo do estudo da interação Humano-Computador já passou das máquinas, para a camada de interação social—o que é que nós, pessoas, podemos fazer com as máquinas. Citando e desafiando-nos todos a ver a conferência da TED de Jane McGonigal, sobre como é que podemos usar a tecnologia para resolver os problemas reais do mundo?

How can we design for a more meaningful interaction, achieving a positive… in people’s lives

Terminou a conferência com um excerto de um vídeo ainda neste tópico—Connecting (disponível no Vimeo)

Portanto, resumindo a experiência, para além de um par de horas muito bem passadas (em boa companhia de uma audiência porreira!) Zaman deixou-nos a pensar sobre como e sobre o que devemos valorizar no estudo de HCI dos próximos 4, 8 anos. Isto é, tal como Jason Pamental referiu (numa outra conferência), nos últimos jogos Olimpicos não havia o iPad. E nos anteriores não havia o iPhone… hoje já temos iWatch[es]… o que é que vai aparecer [e mudar tudo] nos próximos jogos olímpicos? A que é que devemos prestar atenção e valorizar?

Eu sei que o meu telefone já tem mais um par de vídeos para ver assim que puder…


Notas finais:

As citações podem não corresponder ipsis verbis ao discurso de Bieke. Não se trata de livre adaptação, mas sim, apenas da falta de velocidade para tirar notas (tenho cada vez mais dificuldade em fazer multitasking…). Consultem o registo do stream no canal do Mestrado em Comunicação Multimédia: http://www.livestream.com/mcmm

Cartaz da conferência: http://www.slideshare.net/slideshow/embed_code/40776821)

UX+HCI Open Seminars: Bieke Zaman